Trânsito

Vida Crônica

– Para o outro lado da cidade, senhor!

 

A ida estava livre, bom para o passageiro. 

Para o taxista, trânsito na volta.

 

Se a história tivesse sido duas horas antes, na direção estaria o mais simpático dos homens. 

Mas, naquela altura do dia, quem dirigia era o cumprimento do dever de quem já passou da hora de ir pra casa descansar.

 

Com o passageiro era igual, mas diferente. 

Cansado de um dia que poderia se dizer que foram três, ao ponto de não segurar a língua para falar do que via embaçado.

 

O passageiro: do tipo cansado que não vigia o que diz.

O taxista: do tipo cansado que não vigia o que ouve.

 

Com um pouco de conversa, uma flecha foi dita do banco de trás.

A palavra entrou pelos ouvidos do taxista e fez a cama no coração.

 

A princípio, ele nem percebeu o golpe.

Continuou falando, falando…

Foi falando menos.

Terminou a corrida sem falar.

 

No solitário retorno, a palavra-flecha deu voltas e voltas, agitando uma multidão de pensamentos.

 

Coração acelerado, trânsito parado!

As memórias vieram atropeladas e atropelaram toda tentativa de ordem.

O coração rolou, rolou… e caiu no caos.

 

Pobre coração mal-guardado!

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.  

Provérbios 4:23

O antídoto? 

Ele pegou o caminho da Vida!

 

Olhou para a subida e foi falando pra si mesmo do que lhe dá alegria, esperança, ânimo e força. 

Começou falando pouco, foi falando mais, até que conseguiu ouvir. 

 

A palavra de ordem chegou e não havia mais caos!

Daquela noite, ficou a lição:

Cansaço alto, guarda baixa!

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