Trânsito

Há palavras que chegam justamente quando estamos cansados demais para decidir o que deixar entrar.
7 de outubro de 20252 min de leitura

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– Para o outro lado da cidade, senhor!

A ida estava livre, bom para o passageiro. 

Para o taxista, trânsito na volta.

Se a história tivesse acontecido duas horas antes, ao volante estaria o mais simpático dos homens. 

Mas, naquela altura do dia, quem dirigia já era só o cumprimento do dever de alguém que havia passado da hora de ir pra casa descansar.

Com o passageiro era igual, mas diferente. 

Cansado de um dia que poderia se dizer que foram três, a ponto de não segurar a língua para falar do que via embaçado.

O passageiro: do tipo cansado que não vigia o que diz.

O taxista: do tipo cansado que não vigia o que ouve.

Com um pouco de conversa, uma flecha foi dita do banco de trás.

A palavra entrou pelos ouvidos do taxista e fez a cama no coração.

A princípio, ele nem percebeu o golpe.

Continuou falando, falando…

Foi falando menos.

Terminou a corrida sem falar.

No solitário retorno, a palavra-flecha deu voltas e voltas, agitando uma multidão de pensamentos.

Coração acelerado, trânsito parado!

O coração rolou, rolou… e caiu no caos.

Pobre coração mal-guardado!

Cansaço alto, guarda-baixa!

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.

O antídoto?

Olhou para a subida e foi falando pra si mesmo do que lhe dá alegria, esperança, ânimo e força. 

Começou falando pouco, foi falando mais, até que conseguiu ouvir. 

E, no meio das palavras certas, a ordem voltou.