"No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas."
Aristóteles.
Beatriz era uma dançarina com joelhos tortos e que pareciam formam um X porque apontavam para dentro das coxas.
O que poderia parecer um problema para qualquer pessoa, não é para os dançarinos. Eles sabem que ter pernas em X torna mais belo alguns movimentos de dança, como elevar uma perna no atiti, perfeitamente marcado por Beatriz.
Ela tinha olhos grandes que eram quase janelas para os seus pensamentos e denunciavam qualquer emoção. Mas na dança, se expressar demais nunca seria problema e a denúncia era mais que bem-vinda.
Beatriz amava dançar!
Dançar era encontrar a si mesma. Era entrega ao outro e conquistar a si ao mesmo tempo.
Sentia que a música a convidava a se mover e, quando dançava, ocupava um lugar que era só seu no mundo.
Até que, um dia, acordou com uma forte dor na lombar. Pensou que fosse cansaço dos ensaios. Logo passaria.
Não passou.
As dores vinham todos os dias e aumentavam ainda mais quando dançava. Dançar foi ficando mais difícil e sua perna já não subia tanto no seu tão belo atiti.
Tentou remédios, truques e todos os jeitinhos de quem ainda não se convenceu a ir ao médico. Nada resolveu!
Da medicina também não veio a solução, e nem a causa.
Beatriz teve medo de ter que fazer o que era mais sensato: parar de dançar.
Relutou, brigou consigo, com todo mundo e até com Deus. Como dizer para as suas pernas em X e seus olhos expressivos demais que ela não mais dançaria?
Não, não havia possibilidade de parar!
Mas, com o tempo, uma dose de dor e outra de medo, quase qualquer convicção pode ser vencida.
Beatriz cedeu e parou.
No espelho, agora via pernas tortas, que batiam uma na outra ao andar e não achava mais bonitas em saias. Seus olhos expressivos demais denunciavam o tamanho da tristeza de quem estaria sentindo a dor da sua primeira perda na vida.
Era um combo de dor física, a dor da perda de fazer o que mais amava e a frustração de perder para si mesma. Entrou então no limbo que todo mundo entra um dia:
onde se aceitou se despedir de um ciclo, mas ainda não se enxerga o próximo.
Nesse lugar sem muita esperança, os sentidos parecem se aguçar, como se esperássemos um novo movimento de vida fora de nós para reacender a vida dentro de nós.
É nesse momento vazio que percebemos em algo comum um toque de extraordinário!
Comum era comer os bolos de chocolate da sua mãe. Todas as semanas, os bolos na casa faziam a alegria. A pausa para comer um bolo quentinho que acabou de sair do forno era um momento único de prazer que durava exatamente o tempo do bolo esfriar.
Numa quinta-feira qualquer, Beatriz decidiu ela mesma preparar o bolo de chocolate comum, mas sentiu algo extraordinário. Ela ousou colocar uma colher de geléia de pimenta na massa clássica do bolo, e seu cérebro deu um click. Ela se pôs a tentar outra mudança de ingrediente, depois outra mudança no preparo, e percebeu uma mudança em si mesma. Descobriu um novo lugar seu, mas que sempre estivera ali, no chão da cozinha da casa da sua mãe.
Assim como um dia dançou pela primeira vez e em outro ousou mudar uma receita, talvez houvessem outros “primeiros” esperando por ela.
Seu campo de pensamentos se abriu e ela começou a imaginar caixinhas espalhadas pela vida, escondidas e guardando dentro delas diferentes versões de quem ela poderia ser.
Quantas caixinhas ainda poderia encontrar?
Beatriz se permitiu imaginar advogada, nadadora, professora de biologia, economista… e, aos poucos, aprendeu a reconhecer suas caixinhas verdadeiras. Percebeu que elas são mais diversas do que únicas.
Eram tantas que pareceu injusto chorar demais por apenas uma perdida.
Em cada nova caixinha aberta, descobria características que nunca havia reconhecido em si mesma, ou que, até então, pareciam ser seus “defeitos”, como um dia pensou das suas pernas em X e seus olhos expressivos demais.
Aprendeu, então, que mesmo as caixinhas mais queridas não precisam ser eternas.
Na vida, nada é tão permanente que impeça a sensatez de deixar ir,
e nada é tão passageiro que não possa ser insistido.