“Os jovens escolhidos para servir no palácio devem comer da comida do rei e beber do seu vinho para se apresentarem em perfeita forma!”
Essa foi a determinação de Nabucodonosor, rei da Babilônia, há cerca de 2.600 anos.
Mas alguns jovens judeus, levados cativos para a Babilônia, não queriam se alimentar das iguarias e do vinho da mesa real.
Entre eles estava Daniel.
Muito ousado, ele fez uma proposta ao encarregado responsável por sua alimentação:
“Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber. Então, se examine diante de ti a nossa aparência e a aparência dos jovens que comem das iguarias do rei [...].”
Daniel 1:12–13
O encarregado do rei ficou com muito medo de ser punido porque Nabucodonosor era um engenhoso líder militar, de curiosidade aguçada, um pouco maluco e outras peculiaridades.
Mas, foi convencido por Daniel e decidiu testar a ideia. Foi, então, que ele ordenou o primeiro ensaio clínico da história.
“Ele atendeu à proposta e os experimentou dez dias.”
Daniel 1:14
O RESULTADO?
Os jovens que haviam comido vegetais e bebido água aparentavam estar mais saudáveis e mais bem nutridos do que os jovens que recebiam a comida do rei.
“Ao fim dos dez dias, a aparência deles era melhor; estavam mais robustos do que todos os jovens que comiam das iguarias do rei.”
Daniel 1:15
Convencido pelo que viu, o encarregado permitiu que eles continuassem com aquela alimentação.
Mesmo que esse teste esteja muito longe do rigor do que chamamos hoje de estudo clínico, ele é frequentemente citado como um dos primeiros experimentos documentados da história que se assemelham a um estudo comparativo.
E está descrito na Bíblia, no livro de Daniel, capítulo 1.
Havia ali uma pergunta.
Dois tipos de alimentação.
Um tempo determinado: 10 dias.
E, no final, uma comparação dos resultados.
se a história de daniel fosse hoje, quais seriam as diferenças?
Para os padrões atuais, os problemas metodológicos começariam a aparecer rapidamente.
Hoje, os estudos precisam demonstrar que seus resultados são estatisticamente confiáveis. Para isso, o número de participantes é planejado por meio de cálculos matemáticos capazes de dar força suficiente às conclusões.
Também existem critérios de inclusão e exclusão, que determinam quem pode ou não participar de um estudo, ajudando a definir adequadamente a população estudada e a evitar que determinadas características interfiram nos resultados.
Além disso, em muitos estudos comparativos, os participantes são randomizados.
Isso significa que a escolha de quem estará em cada grupo é feita de forma aleatória.
No experimento de Daniel, por exemplo, ninguém sorteou se ele comeria vegetais ou as iguarias da mesa real.
Daniel provavelmente não aprovaria essa parte do protocolo.
Ele e seus três amigos já chegaram bastante decididos sobre o grupo ao qual gostariam de pertencer.
Outro ponto importante é o cegamento.
Em determinados estudos, os participantes não sabem qual tratamento estão recebendo. Em outros, nem eles nem os pesquisadores que avaliam os resultados sabem quem recebeu cada intervenção. São estratégias utilizadas para diminuir a influência das expectativas sobre aquilo que será observado.
No experimento relatado em Daniel, tudo era bem aberto.
Daniel sabia o que estava comendo.
Seus amigos sabiam.
O encarregado sabia.
Provavelmente todo mundo que passasse na hora da refeição também sabia.
E, para completar, o principal resultado avaliado foi a aparência física dos jovens.
Nada de exames laboratoriais, medidas objetivas ou análise estatística.
Era algo próximo de:
“Olhe para nós.
Depois olhe para eles.
E veja quem parece melhor.”
Do ponto de vista da pesquisa clínica moderna, havia muito espaço para viés.
Com todas as diferenças entre esse experimento e os estudos avançados que fazemos hoje, é incrível pensar que, em meio ao esplendor da Babilônia, uma discussão sobre a alimentação de quatro jovens tenha sido registrada no Antigo Testamento e atravessado milênios como um dos episódios lembrados quando contamos a longa história da pesquisa clínica.
Fonte: Bhatt A. Evolution of clinical research: a history before and beyond james lind. Perspect Clin Res. 2010 Jan;1(1):6-10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3149409/pdf/PCR-1-6.pdf


