“Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.”
Mahatma Gandhi.
“Se o medo chegar, eu coloco ele na mala e levo junto”, Lúcia sempre dizia.
Não que ela não sentisse medo, mas aprendeu a fazer calá-lo e seguir em frente. Talvez porque era daquelas que sempre olhavam o lado bom das coisas, com uma boa dose de resiliência e, paradoxalmente, um sólido histórico de frustrações.
É isso mesmo, o fracasso, quando bem digerido, ensina duas lições:
1) onde está o erro
2) nenhuma tristeza dura para sempre.
É daí que nasce a certeza de que tudo ficará bem, mesmo se as coisas dão errado. Certeza que se torna um bom combustível para qualquer aventureiro.
Dirigir era a aventura de Lúcia. E rápido!
Ela não ultrapassava os limites, mas escolhia as estradas com os mais altos. Sua experiência lhe ensinara que tão importante quanto a velocidade que o carro chega, são os seus espelhos e os freios. Se confiava nos espelhos, mudava de faixa sem surpresas. Se confiava nos freios, ousava acelerar, certa de que eles responderiam rápido se fosse preciso.
Lúcia não se achava uma grande motorista, mas confiava nos seus espelhos e nos seus freios.
Até que, numa sexta-feira à noite, voltando para casa após um jantar, quase colidiu com um Rolls Royce preto ao trocar de faixa. “Como um carro daqueles foi parar no ponto cego de espelhos tão confiáveis?” Martirizou-se por dias. A confiança nos espelhos se quebrou, mas ainda havia muita confiança nos freios para continuar suas aventuras.
Com o tempo, aprendeu a calcular tão bem as distâncias que o seu olhar se ajustou para a medida exata dos seus pontos cegos.
Quando enfim se sentia segura de novo, uma pista molhada lhe deu uma derrapagem. Descobriu, assustada, que seus freios já não respondiam como antes. Mais algumas outras derrapagens e logo percebeu que precisaria se adaptar para considerar distâncias maiores.
Foi duro ver que as regras da sua estrada estavam mudando.
Há perigos que nunca saberemos se eles sempre estiveram lá e não os vimos, ou se surgiram apenas naquele instante.
Com espelhos duvidosos e freios cansados, dirigir não era mais tão divertido. Lúcia sentiu como se tivesse perdido a potência de quem decide e faz, na velocidade que quer, o seu caminho.
E potência é como o açúcar: energia rápida, prazer imediato, quase viciante. Mas, agora, não poderia mais alimentar seu vício e teve que se acostumar a se ver na faixa da direita.
Passado o seu estado contrariada e pisando menos no acelerador, ela deixou seu olhar ter outros olhares. Descobriu marcas de pneus nos cruzamentos que denunciavam aventuras passadas e ficava pensando se algumas seriam dela. Reparou nas árvores à beira da estrada que trocavam de cor a cada estação. Passou a parar numa barraca de frutas para tomar água de coco e ouvir as histórias bem-humoradas do senhorzinho que atendia por ali.
Até a música do carro mudou. Letras antigas se revelavam novas, como se estivessem esperando o momento certo para se mostrar quando o ouvinte estivesse realmente ouvindo. Ela chegava a dar uma ou duas voltas a mais no quarteirão só para ouvir mais um pouquinho daquela música que, de repente, tinha arrebatado o seu coração.
Numa dessas voltas a mais, Lúcia percebeu que a adrenalina de um caminho rápido pode até divertir, mas o vício dela nos cega para outros prazeres.
Quando a estrada nos força a mudar nosso jeito de dirigir, percebemos que ela mesma tem a felicidade escondida no caminho!