“E o perigo maior é a gente se acostumar com o que não deveria.”
Guimarães Rosa.
Manuela sempre teve problemas com meias e meios.
Um joanete no seu pé direito fazia com que sentisse dor sempre que usava meias por muito tempo. Só de sentir o incômodo da meia, ela já se lembrava que não gostava do seu pé por causa do joanete. Talvez por isso também ela nunca gostou do frio. Quando o inverno chegava, ela vivia com um cobertor pela casa para enrolar os pés e não precisar das meias.
Os meios eram outro tipo de problema: ela gostava demais.
Dizia que os começos e os fins são sempre uma bagunça, mas os meios são a calmaria da vida. O meio de um furacão, por exemplo, é calmo comparado ao começo ou ao final dele. É no centro do furacão que os ventos são mais fracos e é possível até ver o céu azulado.
Ela não gostava daquele frio na barriga nos começos que sinalizam o medo do desconhecido, nem do medo da ausência e da sensação de perda que os fins sempre dão. Mas os meios, esses, ela sempre fazia o possível para estender o máximo que pudesse.
Seu sobrinho de 5 anos era um garotinho cheio de energia que adorava correr para todo lado. Aquele menininho, de olhos expressivos e empolgados, tinha como brincadeira favorita o pega-pega. Mas ele que foi pego num detalhe pela sua tia: ele sempre estava de meias. Não havia chinelos, tênis ou sapatos que fizessem aquela criança usá-los em casa, nem na casa da avó, onde corria livre no quintal. Para ele, estar de meias era uma insistência pessoal, sua marca na família, sua individualidade assegurada. Não havia quem o mudasse e seu semblante irradiava alegria quando ele sentia que finalmente estava livre para ficar de meias. O quintal da avó, com piso de cimento, era palco favorito de passagem para aquelas meias que não durariam uma semana sem ganhar ao menos um furo, às vezes dois, de uma só vez.
Manuela, ao reparar nas meias do sobrinho, se lembrou que o joanete é uma característica da família da sua mãe e logo percebeu a ondulação na lateral do pé direito da criança, perto do dedão.
– Ué, como ele pode gostar tanto das meias com um joanete no pé direito?
Ela ficou intrigada, preocupada até, pensando que a criança pudesse sentir tanto frio nos pés que justificasse o incômodo das meias. Sem demora, foi logo perguntar para o menininho que, dando risada, respondeu:
– Não sinto frio nenhum. Nem nos pés e nem nos braços.
Ela insistiu para que ele explicasse por que as meias eram tão importantes e ele, escondendo os pés debaixo de almofadas, disse que usava as meias para esconder as unhas dos dedos do pé, que estavam sempre grandes. Logo ela lembrou que ele tinha horror à ideia de chegar perto de um cortador de unhas.
Foi uma risada só!
A meia servia a ele como uma máscara serve à quem quer esconder sua própria identidade. Assim, ninguém veria suas unhas grandes e ele se poupava de ser convencido ao corte de unha, que sempre acabava no mesmo choro e berros de “eu não vou deixar cortar”, fruto de um único corte errado, em que a lâmina do cortador encostou na pele ao lado da unha do mindinho do pé.
Manuela então gastou todo o seu discurso para incentivar o menino a ter coragem, porque não fazia sentido ele aguentar o incômodo das meias apertando um joanete pelo medo do cortador encostar na pele do seu dedinho.
Em vão!
A criança não abriria mão da segurança das suas meias tão cedo para adiar os cortes de unhas.
A mãe que lutasse para ter um estoque interminável de meias. Mas o principal problema para Manuela era imaginar que ele não sentiria o prazer que ela sentia ao tirar as meias, encostar os pés no chão frio e andar descalço num dia de calor.
Manuela percebeu que as meias do seu garotinho eram como os seus próprios meios esticados ao máximo:
Tão aparentemente seguros, mas ao mesmo tempo tão enganosos.
Meias e meios que ficam mais tempo do que devem, ainda que furados.
Que se remendam num dia para logo serem furados de novo no mesmo piso de cimento de sempre.
Que se vestem de continuidade para esconder o medo do dedinho ter a lasquinha da pele cortada, como aconteceu num único dia.
Meias e meios que encontram força no medo para se manterem no mesmo pé, mesmo ao custo da dor.
Meias e meios que ficam, e de tão obstinados, se tornam barreira para o prazer de tocar os pés no piso frio, onde só o frescor conseguiria dar algum alívio do calor e da dor.
Respostas de 2
Adorei …achei muito fantástico esse conto …e curioso
Parabéns….. muito bom!
O conto mostra que, assim como uma criança que não quer tirar as meias por medo, nós muitas vezes não abandonamos aquilo que já não nos serve, porque exige coragem. Mas ao não tirar, perdemos a oportunidade de experimentar o “chão frio” uma forma “para novos começos”, para a graça e para o alívio que a vida (ou Deus) pode nos dar, amei…só continue…