Alguém achou por bem fazer de um cacto e de um girassol vizinhos de vaso, bem no canto da sala.
O girassol, jovem e recém-chegado, estava todo animado para fazer amigos, mas foi ficar justo ao lado de um cacto rabugento. Embora muito diferentes, os dois precisavam dividir o mesmo sol da única janela ensolarada da casa.
Todos os dias, o cacto via o girassol se inclinando para o leste pela manhã, seguindo o sol até o oeste ao longo do dia, e retornando ao leste durante a noite para começar tudo de novo no dia seguinte.
Já o girassol, ao girar diante do cacto, o via sempre imóvel, sem parecer se importar com o sol que o iluminava.
Um parecia imaturo e desesperado pela luz aos olhos do outro, que, por sua vez, parecia indiferente e acomodado aos olhos do um.
Na sua dança de todos os dias, o girassol entregava um louvor ao sol que tanto o provia. Ele se esticava porque sentia todo um lado do caule o empurrando em direção à luz. Era o que sabia fazer e fazia com alegria.
Quando a luz mudou
Numa certa semana nublada, o girassol não dançou.
Não vinha luz solar de nenhum canto da sala, e ele ficou confuso e deprimido. Foi parar virado para o cacto, que, como sempre, não queria papo.
Foi aí que o girassol percebeu que o cacto, na verdade, não era imóvel e tampouco indiferente. Enquanto ele se via triste sem a luz direta do sol, o cacto nunca parecera tão confortável. Estava mais “cheinho” por não perder tanta água e parecia até sorrir, como quem estivesse descansando.
O girassol percebeu que os poros do cacto fechavam de dia e abriam de noite, e não resistiu a provocar o vizinho que antes lhe parecia tão indiferente:
– Ora, ora… vejo que eu não sou o único que me mexo por aqui – provocou o girassol.
– E eu não sou o único rabugento – respondeu o cacto. – Bastou uma semana sem sol para você vir me provocar com essa cara de abandonado.
O QUE CADA UM NÃO CONSEGUIA VER
Passadas as primeiras provocações, o girassol entendeu que o cacto sempre parecia de cara fechada porque vivia no limite entre o sol que era necessário e o sol que o machucava. Dia após dia, o cacto suportava a ferida do calor e fechava seus poros. Seus muitos espinhos eram sua proteção, mas por baixo deles havia caules fortes e suculentos que, mesmo sem folhas, faziam fotossíntese.
Nessa troca nublada, o cacto viu seu novo amigo deprimido, mostrando sua dor profunda e o quanto sentia falta de dançar ao encontro da luz. O que antes lhe parecera desespero agora começava a parecer devoção. Talvez só o amor explicasse tanta coragem de se entregar à luz. Mesmo sabendo que um vento forte poderia dobrar suas hastes, o girassol nunca deixava de se estender em direção ao sol.
Os vizinhos de vaso agora sempre esperavam os fins de tarde para conversar. O girassol contava o que via enquanto girava, e a alegria que sentia quando, no ápice, ficava de frente para o sol. O cacto compartilhava suas estratégias para reter água, mesmo nos dias muito quentes.
Um passou a ser admirado pela devoção e alegria aos olhos do outro, que, por sua vez, passou a ser admirado pela inteligência e resistência aos olhos do um.
APRENDER A PERMANECER
Depois de um tempo, começou a ficar difícil para o girassol girar. À medida que amadurecia, seu movimento diminuia até que passou a permanecer voltado para o leste. A princípio, ficou triste por perder sua juventude e parar de dançar, mas logo ele apreciou a nova fase, pois tinha aprendido o valor de permanecer firme, mesmo nas mudanças.
Os amigos seguiam conversando e um belo dia experimentaram um pequeno milagre: nasceu uma flor no vaso do cacto. Agora, ele também saberia o que é ser vibrante e perfumado e abraçou com alegria e intensidade sua delicadeza na flor que duraria apenas alguns dias.
Quando há compreensão e respeito, os cactos florescem e os girassóis resistem.
Um pouco de ciência
Girassóis jovens acompanham a trajetória do sol ao longo do dia e, durante a noite, voltam a se orientar para o leste, preparando-se para a manhã seguinte. Esse movimento, chamado heliotropismo, está ligado ao crescimento desigual dos dois lados do caule e ao relógio biológico da planta. À medida que amadurecem, os girassóis diminuem esse movimento e tendem a permanecer voltados para o leste.
Muitos cactos, por sua vez, desenvolveram uma estratégia quase oposta para viver sob sol intenso e pouca água: mantêm seus estômatos fechados durante o dia e os abrem principalmente à noite, reduzindo a perda de água. Assim, enquanto o girassol jovem se move em direção à luz, o cacto aprende a administrar o encontro com ela.
Duas plantas diante do mesmo sol — cada uma encontrando uma forma diferente de permanecer viva.


