"Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si."
Ruben Alves.
Clarisse tinha o hábito de dar vida ao concreto, principalmente os prédios da selva de pedra em que vivia.
Se parasse um tempo em frente a um prédio antigo, baixo, retangular e sem elevador, logo imaginava que ele seria para os outros prédios como um senhor de sobrancelhas grossas, óculos quadrados, roupas engomadas, pernas cruzadas e jornal de papel nas mãos. Se fosse um prédio alto, espelhado e assimétrico, ela pensaria nele como uma pessoas moderna, que seguia a moda das passarelas e tomavam café sem açúcar. Já um prédio simétrico e moderno, mas clássico, poderia ser alguém de ideias inovadoras, mas fiel ao mesmo prato, no mesmo restaurante de sempre. Nenhum prédio escapava de seus achismos e estereótipos.
A cada esquina havia personagens conhecidos e o mundo de Clarisse era cheio de diálogos silenciosos e mais previsíveis que os que ela conseguiria prever no mundo real.
Um dia, porém, precisou entrar em um desses prédios-personagens. Tinha entrevista de emprego em um edifício azul-claro, de janelas pequenas, nem muito alto nem muito baixo, quadrado e sem espelhos. Embora a forma do prédio não a empolgasse, ele tinha um jeito meio ajeitado: pintura recente, janelas impecavelmente limpas, nada quebrado. Misturava tantos elementos que era um dos prédios mais difíceis para ela classificar.
Na recepção, uma senhora simpática a recebeu, e Clarisse, atenta, percebeu seus óculos quadrados, camisa branca abotoada até o pescoço e calça com vinco perfeito. Ofereceu-lhe café, já dizendo que o dela seria sem açúcar para escapar da diabete. A senhora abriu um armário mostrando a ela pacotes de cafés do mundo inteiro: brasileiro, indiano, árabe, colombiano e tantos outros. Contou que escolhia um diferente a cada semana, mas sempre o tomava na mesma xícara que tinha pintada a frase:
“Só se vê bem com as evidências.”
Clarisse riu do trocadilho com a famosa frase sobre o coração de “O Pequeno Príncipe”. E, tomando o café árabe, pensou: será que sua mania de inventar prédios-personagens era coisa de quem via o mundo com o coração ou com as evidências?
Antes que pensasse na resposta, o telefone tocou e ela foi chamada ao segundo andar. O elevador era dos antigos, com porta de grade que se fechava por dentro. Deu até medo de entrar! Ao sair, já reparou num grafite na parede da sala assinado pelos Gêmeos, os famosos grafiteiros brasileiros. E não pode não reparar no contraste do grafite moderno com uma poltrona de couro na sala, bem antiga e que a lembrava a da casa da sua avó.
Uma pessoa entrou na sala e entregou um teste simples: escolher, em cada par de objetos, o que mais lhe agradava. Parecia fácil, mas não foi. Clarisse percebeu que sua escolha nunca era neutra… ela pensava antes pelo que julgava ser moderno, inovador, confortável, amigável, seguro… e por aí vai.
Sua mente voltou à frase da xícara.
“Como confiar se o que vejo são mesmo evidências do que eu penso?”
“Como posso decidir o que é importante sem perguntar “para quê”, “quando” e “por quem”?”
No seu primeiro objeto do teste, ela paralisou: um ferro de passar contra um fone de ouvido.
O ferro seria essencial para passar a camisa da entrevista, mas não é um grande problema sair com uma camisa amassada para ir a academia. Já o fone de ouvido, ela poderia dizer que é sempre desnecessário? Também não conseguiu dizer.
Pensou e repensou em sua forma de fazer classificações, a começar por aquele prédio: não era o grafite dos Gêmeos que fazia a sala ser moderna, nem a poltrona de vó que a tornava antiga.
Era o prédio mais difícil de classificar, por fora e por dentro.
Clarisse terminou o teste criando sempre dois cenários para cada escolha, como se recusasse a reduzir o mundo a uma só lente.
Afinal,
Cada evidência só serve para se provar ao olhar que já a escolheu.
E talvez só se veja bem de verdade quando não se escolhe o que olhar e, ainda assim, se consegue ver tudo.