“Era melhor como filósofo do que como médico”, diziam alguns críticos.
Mas quem acha que a filosofia e a medicina seguem caminhos opostos, talvez não conheça muito bem nem uma, nem outra.
"O médico deve ser um filósofo"
Galeno
AS IDEIAS QUE FORMARAM AVICENA
A busca pelo conhecimento
Avicena foi um jovem prodígio que combinou as influências do Alcorão, do direito islâmico e da sabedoria grega em seus ideais.
Do Alcorão, que decorou inteiro aos 10 anos, gravou:
“E não persigas o que não tens conhecimento; por certo, o ouvido, a visão e o coração — de todos eles se pedirá conta”
Surata al-Isrā, 17:36
Ele entendeu que o conhecimento verdadeiro deveria ser perseguido e, para isso, o experimentalismo se tornou seu norte, porque a verdade não estaria na opinião das pessoas, mas na realidade observada das coisas.
O valor do consenso
Da tradição islâmica, ele também valorizou e incorporou a ideia de consenso (Ijma) em seus ideias. Ele acreditava que a verdade não deveria ser imposta por alguém, mas que chegar a um consenso é necessário para valorizar as diferenças de opinião e padronizar práticas.
A lógica como ferramenta
Das suas leituras e influência grega, ele herdou a lógica do princípio Aristotélico, onde deveria pensar a concretude das coisas no raciocínio bem elaborado e nunca perder os argumentos para meros formalismos ou abstrações.
Ele também teve influência dos estóicos e, deles, aprendeu a lógica das condicionais do “se…. então”, que abrem as possibilidades de fazermos proposições, para muito além de cálculos matemáticos. Hoje, a lógica das condicionais parece óbvia e comum para nós mas, naquele momento, essa lógica era mais restrita à matemática e não tão comum às ciências experimentais.
QUANDO AS IDEIAS ENTRAM NO CONSULTÓRIO
Avicena combinou a filosofia, suas crenças e ideais com a sua prática de médico, observando os seus pacientes e como os novos tratamentos que propunha poderiam funcionar. Com as suas observações, ele formulou sete regras para avaliar como os medicamentos podem agir para tratar uma doença. Essas regras foram descritas no seu Cânone da Medicina, que influenciaria tanto o oriente quanto o ocidente para a farmacologia moderna.
Sete regras para testar um medicamento
01
O medicamento deve ser puro, sem impurezas.
Hoje: boas práticas de fabricação e controle de qualidade.
Pureza
02
O medicamento deve ser testado em uma única doença, evitando casos com múltiplos problemas ao mesmo tempo.
Hoje: esse princípio ajuda a isolar o efeito observado e a atribuir o resultado com menos fatores de confusão.
Uma variável de cada vez
03
O medicamento deve ser observado em condições diferentes, porque um mesmo efeito pode acontecer por razões distintas.
Hoje: comparar cenários ajuda a entender melhor como o tratamento age e a evitar conclusões apressadas.
Testar mais de uma possibilidade
04
A intensidade do medicamento deve ser adequada à intensidade da doença.
Hoje: dose e intensidade do tratamento precisam ser ajustadas ao quadro clínico, buscando eficácia sem perder de vista a segurança.
Respeitar a complexidade
05
É preciso acompanhar quanto tempo o medicamento leva para produzir efeito e por quanto tempo esse efeito se mantém.
Hoje: o tempo de início, duração e resposta ao tratamento ajuda a entender melhor sua eficácia e a definir como ele deve ser usado.
Observar o tempo
06
O efeito do medicamento precisa se repetir em diferentes casos; caso contrário, pode ter sido apenas um resultado acidental.
Hoje: usamos amostras maiores e análise estatística para avaliar se um efeito é consistente e confiável.
O resultado deve ser reprodutível
07
Os efeitos observados em animais ou outros modelos experimentais não podem ser automaticamente atribuídos ao organismo humano.
Hoje: estudos em células e animais são etapas importantes da pesquisa, mas a eficácia e a segurança de um tratamento precisam ser confirmadas em estudos clínicos com pessoas.
Confirmar em seres humanos
Um legado que atravessou séculos
Essas regras foram o embrião da medicina baseada em evidências, que sustenta as pesquisas e ensaios clínicos de hoje. Embora outros cientistas e pensadores surgiram na mesma época com ideias próximas, a forma e clareza com que Avicena trouxe suas ideias fez com que elas pudessem exercer influência durante séculos, do mundo muçulmano à Europa cristã.
É por isso que se engana quem pensa que filosofia não tem aplicação prática.
Quando refletimos sobre o caminho dos nossos pensamentos, encontramos novas lógicas que transformam.
Fonte: Legacy of Avicenna and evidence-based medicine. Shoja, Mohammadali M. et al. International Journal of Cardiology, Volume 150, Issue 3, 243 – 246.


