A Escola do Nascer

A escola do nascer

"No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo."

No minuto antes de Cláudia nascer, ela ficou apavorada!

Disseram a ela que, nesse mundo, havia seres bem maiores do que ela seria quando chegasse aqui. Já tinha ouvido vozes de dentro da barriga e, algumas vezes, essas vozes soavam bem assustadoras. 

Eu não sei se vocês sabem, mas o passar do tempo para quem está dentro de uma barriga é diferente do que é para nós, que estamos fora dela. Para nós, parece que tudo passa muito rápido: num dia, ouvimos o coração do novo bebê, e parece que no outro ele já está com força suficiente para chutar com os pés. Não tem como essas transformações tão grandes acontecerem tão rápido assim. É por isso que o tempo da barriga é diferente. O que, para nós, parece 1 minuto, lá dentro parece 1h. Por isso, no minuto antes de Cláudia nascer, ainda faltaria 1h no tempo da barriga. 

De repente, um clarão incomodou seus olhos e ela viu um portal que transmitia dele uma paz muito grande. Ela logo entendeu que era um convite a entrar. Passou por ele e encontrou um lugar lindo, com muitas flores e um sol quentinho sobre uma bela casa onde estava escrito: “Escola do Nascer”. 

Cláudia foi recebida na porta por alguém muito sorridente, que lhe disse:

– Seja muito bem-vinda, Cláudia! Essa é a Escola do Nascer. Aqui é o lugar aonde todos vêm no minuto antes de passar pelo portal da vida na Terra. Você está inscrita na aula 001, que já vai começar.

Ela viu uma porta e, ao abri-la, encontrou uma sala tão grande que nem conseguia ver o final. O espaço estava cheio de bebês para nascer que entravam por várias outras portinhas espalhadas pelas paredes. A aula começou com as boas-vindas e a calma de um professor que nem parecia precisar liberar a todos em apenas 1 min do tempo da Terra. Foi aí que Cláudia percebeu: naquele lugar o tempo passava ainda mais devagar. Um minuto da Terra equivalia a um dia inteiro ali.

O professor iniciou a aula de “instintos básicos de sobrevivência“, explicando a chorar quando sentir dor, fazer cara feia quando não gostar de algo, fazer cara de assustado quando não estiver confortável, usar as pernas pra correr em perigo, e usar os braços para bater quando o perigo estiver próximo demais. Disse que, ao sentir perigo, o corpo todo entra em estado de alerta, ganhando energia e força para reagir. Nesse momento, os músculos ficam mais fortes do que o normal e esse seria o nosso estado chamado coragem.

Depois, entrou o professor da aula 002, “instintos básicos de socialização“. Ali, Cláudia aprendeu que um sorriso não é apenas um sorriso e, dependendo de como se mexem o rosto e o corpo, ele pode significar coisas bem diferentes. Ela aprendeu a fazer a cara de charme, a de engraçada, a do “por favor”, a do “obrigada” e até aquela que usamos quando fingimos entender o que disseram.

A última aula daquele dia foi “manuais“. “Ufa, finalmente vão me dar um material pra levar”, pensou. Não era possível aprender tudo o que precisava para viver os 86 anos que lhe disseram que teria na Terra em apenas 1 dia. Primeiro, explicaram que dentro dela haveria sempre um guia prático para agir, e esse manual se chamava “consciência“. Para acessá-lo, ela teria de aprender a escutá-lo, e essa capacidade diminuiria com altos níveis de estresse. Era importante controlar isso. Depois, contaram que, ao longo da vida, ela conheceria outro manual, a . Ele a ajudaria a enfrentar os momentos mais difíceis, superar desafios e encontrar descanso quando nada mais funcionasse. 

Por fim, o último manual viria de um ser humano. “Ufa, finalmente algo mais concreto”, pensou novamente. Disseram que uma mulher a receberia depois que passasse no portal e lhe ensinaria o conteúdo do livro “Guia prático para viver“. Ela ensinaria Cláudia a comer, falar, andar, levar sempre uma blusa ao sair de casa, mesmo que o dia parecesse quente, a convencendo-a com uma previsão do tempo diária. 

Depois, outras pessoas apareceriam ao longo da vida para ensinar outras lições do meio e do final do livro. Mas a primeira pessoa seria sempre a que mais a conheceria e, enquanto estivesse presente, lhe ofereceria um lugar para ser recebida com amor.

– Amor? – Cláudia perguntou. – O que é isso exatamente?

Foi então que as portas da sala se abriram e todos precisaram passar imediatamente para nascer. 

Sem entender o que era o amor, Cláudia saiu para o portal.

– Não, espera! Eu não aprendi tudo. Alguém falou sobre amor e eu acho que vou precisar saber isso. Me deem mais um minuto.

Ela passou pelo portal quase empurrada e logo usou o primeiro instinto que aprendera: 

Cláudia chorou porque não estava preparada para viver.

Foi então que Cláudia ouviu alguém muito afoito chegando perto. 

Logo depois, ela se sentiu quentinha e passou as horas e dias seguintes sendo alimentada, abraçada e ouvindo vozes tão gostosas que tudo se acalmou dentro dela.

O medo de viver foi embora, e ela pensou: – Ah… deve ser isso o amor!

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