Maria tinha visto morrer o seu melhor amigo.
Mesmo assim, permanecia sentada sobre uma pedra, bem ao lado do túmulo, esperando algo de milagre que ela nem sabia o que seria.
No buraco entre a tristeza do luto e a esperança da alegria de vê-lo viver de novo, haviam incontáveis pensamentos.
“Talvez aquele pesadelo fosse só mais um milagre e ele não havia morrido de verdade.”
“Depois de tantos milagres feitos a tanta gente, ele poderia estar fazer um para ele mesmo?”
Ela lembrava de quando ele ressuscitou a seu amigo Lázaro: ele foi até a porta do túmulo, pediu que removessem a pedra e o chamou para fora.
“Será que alguém precisa o chamar agora também?”
Mas, a pergunta que mais martelava em sua cabeça era se ele saberia que ela estava ali, à espera do seu melhor amigo.
Tudo isso ela pensava. Chorava e pensava!
Três dias da morte dele tinham se passado.
Ela estava cansada porque o havia seguido até o fim, em todo o caminho do sofrimento, e viu toda a dor, toda a angústia, todo o sangue.
Ela não se permitiu afastar dele, não conseguiria fazer isso depois de experimentar da água que jorrou dele, até o final.
Agora, queria ficar sozinha. Precisava proteger e nutrir sua esperança sem que ela fosse contaminada no medo dos seus amigos. Precisava revisitar todas as suas memórias, repassar cada palavra dita nos últimos meses na esperança de encontrar algo que ainda não tivesse compreendido.
Ele havia falado sobre voltar… mas será que ela tinha entendido direito?
Era tanta coisa extraordinária no meio do ordinário. Tantas parábolas no meio da história real que ele estava construindo…
De repente, uma voz a chama pelo seu nome. Podia ser qualquer um, afinal era conhecida por tantos. Mas ela sabia bem que, por ser mulher, o mal que se faz uma vez ficaria gravado na memória de quem nada tem a ver com as suas histórias.
Eles não esqueceriam!
A nomeavam como queriam e achavam que sabiam tudo sobre ela, mas eles não tinham nome.
Mas, ela conhecia a entonação da voz que mais amava. Sabia cada frequência da voz que tocava imediatamente sua alma. Era a mesma voz que a libertara, logo que se conheceram, dos sete demônios que a aprisionavam.
Desde então, aquela voz lhe dava o alívio diário para a sua alma cansada e sobrecarregada, incapaz de carregar sozinha todo o peso acumulado.
Como esquecer e viver sem isso agora?
Ela tinha encontrado uma paz e uma vida que nunca antes havia experimentado. Seria eternamente grata e devota ao dono daquela voz. Andaria com ele sem medo a despeito do que pudesse acontecer a ela. Porque a gratidão e a coragem de seguir alguém é mesmo proporcional ao quanto você já descobriu que não seria nada de bom se não fosse por esse “alguém”. Ele mesmo tinha dito uma vez: quem muito é perdoado, muito ama!
Então, no auge da sua tristeza, ela ouve o seu nome e o reconhece imediatamente:
Maria!
Era um nome tão comum dito de uma forma tão pessoal e tão íntima.
Não foi para um grupo de pessoas. Não foi em uma sala onde ela estava sentada numa cadeira o assistindo falar da segunda fileira. Tampouco foi um recado dado por outro alguém.
Ele estava ao lado dela, só com ela, e falava o nome dela.
Transbordando de alegria, ela respondeu:
Mestre!
Uma resposta
Os contos são lindos, ajudam a repensarmos nossas atitudes