“Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade.”
Albert Einstein
Juliana adorava ver fotos antigas.
As mais velhas que tinha eram da juventude de sua avó, mas eram pouquíssimas, esquecidas em um álbum amarelado.
Parada diante de uma foto, prestava atenção nos detalhes das roupas, nos cabelos, nas expressões, no cenário ao fundo e se pegava imaginando uma história que encaixasse perfeitamente no que parecia ser aquele momento registrado.
Na sala da casa da sua mãe, havia um porta-retrato com uma foto do seu aniversário de nove anos.
Nela, Juliana aparecia emburrada, fazendo o bico das crianças contrariadas, atrás do bolo e cercada por crianças sorridentes na hora do parabéns.
Durante anos, cada visita que reparava no porta-retrato ouvia sempre a mesma versão:
Juliana havia perdido injustamente uma partida de jogo de tabuleiro instantes antes do parabéns.
Ela ria ao contar, mas ainda sentia uma pontada da raiva daquela garotinha de nove anos que havia sido injustiçada pelos próprios amigos na própria festa.
Anos depois, numa festa de Natal, os primos sugeriram jogar para passar o tempo.
Era o mesmo jogo traumatizante. Mas, agora, Juliana ela era uma adulta resolvida, que acreditava ter aprendido a nunca mais se dobrar diante de injustiças.
Enquanto repassavam as regras, alguém mencionou uma que ela nunca havia notado.
— Mas sempre foi assim?
— Claro que sim! Você não se lembra que…
Nesse momento, todas as certezas sobre a injustiça sofrida no passado foram ao chão.
Relutou um pouco, mas a verdade é que já não sabia o que pensar sobre aquele dia. E, pior:
não sabia mais o que pensar sobre si mesma.
O que faria agora com uma história que já estava tão confortavelmente moldada à imagem de quem acreditava ser?
A história da foto mudou.
Já não havia ofensa a reparar.
No lugar de menina injustiçada, apareceu uma garotinha teimosa demais, que havia brigado depois de uma derrota estúpida no dia do seu aniversário.
E Juliana, que antes olhava para a foto com indignação, passou a olhá-la com certa reprovação.
Com o passar dos anos, viveu muitas outras perdas, nos jogos e fora deles.
Brigou, persistiu, recuou quando foi preciso.
Algumas vezes chamou sua teimosia de persistência, e sua briga de coragem.
Em outras, viu apenas orgulho.
E, nas situações em que recuar já não era mais possível, acabava se reencontrando na lembrança daquela garotinha emburrada no dia do aniversário.
Certo dia, remexendo caixas de fotografias, reencontrou sua foto algoz.
Parou diante dela.
Mas, dessa vez, no seu olhar já não havia raiva e nem reprovação. Havia apenas ternura, como se acolhesse a menina que, seja lá pelo que estivesse sofrendo naquele instante do parabéns, simplesmente não havia conseguido sorrir.
Foi então que Juliana percebeu que uma fotografia estática e congelada não guarda apenas uma história.
Na verdade, ela carrega todas as histórias que ainda descobriremos nela ao longo da vida.
Na sala, o porta-retrato voltou ao seu lugar. Mas, dentro dele, já não estava apenas a garotinha injustiçada, nem apenas a orgulhosa.
Estavam todas as Julianas que ela havia sido, e todas as que ainda seria.


