As histórias do passado movediço

As histórias do passado movediço

“Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade.”

Juliana adorava ver fotos antigas. As mais velhas que tinha eram as da juventude de sua avó, mas eram pouquíssimas e esquecidas em um álbum amarelado. 

Parada em frente à uma foto, ela prestava atenção nos detalhes das roupas, nos cabelos, nas expressões, no cenário ao fundo, e se pegava imaginando uma história que encaixasse perfeitamente no que parecia ser o momento do registro. 

Na sala da casa da sua mãe, havia um porta-retrato com a foto de seu aniversário de 9 anos. Ela aparecia emburrada, fazendo o bico das crianças contrariadas, atrás do bolo, cercada por crianças sorridentes na hora do parabéns. Durante anos, cada visita que notava o porta-retrato ouvia sempre a mesma versão: 

“que ela havia perdido injustamente uma partida de jogo de tabuleiro instantes antes do parabéns.” 

Ela ria, mas ainda sentia uma pontada da raiva que aquela garotinha de 9 anos sentiu quando se viu injustiçada pelos próprios amigos na sua própria festa.

Anos depois, numa festa de Natal, os primos sugeriram jogar para passar o tempo. Era o mesmo jogo traumatizante, mas agora ela era uma adulta resolvida, que acreditava ter aprendido a nunca mais se dobrar à injustiças. Repassando as regras, alguém menciona uma que ela nunca havia notado. 

– Mas sempre foi assim? 

– Claro que sim! Você não se lembra que… 

Nesse momento, todas as suas certezas da injustiça sofrida no passado foram ao chão. Relutou um pouco, mas a verdade é que ela nem sabia mais o que pensar sobre aquele dia e, o pior, sobre si mesma. 

O que faria agora com a história que já estava tão confortavelmente moldada à imagem de quem acreditava ser? 

A história da foto mudou. 

Já não havia ofensa a reparar. No lugar, uma reprovação interior à garotinha que foi teimosa demais e brigou depois de uma derrota estúpida no dia do seu aniversário. Agora, o seu desafio era se resolver com a imagem que fez de si como uma pessoa orgulhosa.

Com o passar dos anos, Juliana viveu muitas outras perdas, nos jogos e fora deles. Brigou, persistiu, recuou quando foi preciso. Algumas vezes validou sua teimosia chamando-a de persistência, e sua briga de coragem. Em outras, ela viu apenas orgulho. Em situações em que recuar já não era mais possível, se reencontrava na lembrança da garotinha emburrada no dia do aniversário.

Certo dia, remexendo em caixas de fotos para ajudar na mudança de sua mãe, reencontrou sua foto algoz. Mas, dessa vez, no seu olhar já não havia raiva nem reprovação, apenas ternura, como se acolhesse a menina que não conseguiu superar seja lá o que fosse no instante do parabéns para simplesmente sorrir. É justo que todo mundo deveria sorrir no dia do seu aniversário.

Foi então que se deu conta de que uma foto estática e congelada não guarda apenas uma história. 

Na verdade, ela carrega todas as histórias que descobriremos nela ao longo da vida. 

Na sala, o porta-retrato voltou. Mas, dentro dele, já não estava apenas a garotinha injustiçada nem a orgulhosa: estavam todas as Julianas que ela havia sido, e todas as que ainda seria.

Porque o passado não é uma foto: ele muda conforme mudamos!

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