Quando os sonhos perderam a graça

Quando os sonhos perderam a graça

"Sonhar é acordar-se para dentro!"

Ana sonhava quase todas as noites e, quando acordava, ficava tentando prender seus sonhos ao mundo dos acordados.

Antes de abrir os olhos, ela ficava alguns minutos na cama, tentando segurar as sensações e alongar a vida do sonho. 

Revivia cada detalhe que conseguia lembrar, sentindo que, ao dormir, encontrava um portal que se abria para um mundo paralelo onde tudo era possível. 

Certa vez, sonhou que era uma guerreira espadachim com uma espada afiada na mão. A guerreira tinha cara de brava e valente, mas vestia um avental de cozinha. Por dias, cada vez que cortava cenouras, imaginava-se num duelo, como se a estratégia de corte e o tamanho dos legumes fosse seu próprio campo de batalha.

Em outra noite, sonhou com o céu. Sentiu um empurrão forte nas costas, caiu e, deitada, começou a flutuar até um lugar cheio de anjos entre nuvens. Eles estavam em fileiras, como soldados concentrados para entrar em batalha. Ana ficou tão maravilhada que, pelo dia inteiro, só pensava na sensação de estar entre os anjos.

Também teve sonhos estranhos. Encontrou um vilão de filme, daqueles bem cruéis, mas que ali se mostrava humano, simpático e gentil. Ela ficou muito incomodada depois porque parecia que teria de defendê-lo dali em diante, como se carregasse um segredo de que aquele vilão era, na verdade, um homem bom.

Ninguém sabia de onde Ana tirava tanta imaginação, já que nem gostava de histórias muito fantasiosas nos filmes.

O tempo passou e as aventuras deram lugar a medos e preocupações. Ana nunca mais acordou se sentindo tão forte, como no dia em que sonhou levantar um carro com uma mão só.

Curiosamente, à medida que sonhava menos, passou a gostar mais das fantasias dos desenhos e dos finais felizes de filmes clichês. Talvez, ela tenha colocado as aventuras para ocupar um lugar de sua mente onde ela saberia que seriam só uma fantasia.

Até que parou de sonhar. 

Olhava para trás com graça e saudade, mas considerava que aqueles sonhos pertenciam a um tempo de ingenuidade e passou a dar mais importância a outros tipos de sonhos, aqueles desejos que poderiam ser vividos e se encaixavam na sua realidade. Às vezes, até os diminuía para caber melhor. Se antes sonhava viajar para um castelo e uma banheira imensa, agora bastava-lhe imaginar ficar numa pousada com um café da manhã honesto.

Ela ainda desejava, mas adaptava para caber… se não acontecesse, não ficaria tão triste!

O que ela ainda não tinha percebido é que certas portas só se abrem na fantasia, como no dia em que sonhou ser candidata à prefeita e ouviu a cidade inteira gritar seu nome. Ela se esqueceu que valia a pena sentir a euforia que tomou conta de seu corpo por dias depois daquela manhã.

Mas, um dia, ela acordou sentindo os ossos fracos e sem vigor. Fechou os olhos e desejou voltar ao tempo em que bastava dormir para criar combinações de imagens, sons e sensações que fortaleceriam seu corpo e seu coração. 

Porque o que só existe no mundo dos sonhos pode até ser fantástico demais, mas não é menos necessário para viver. 

E talvez seja a fantasia dos sonhos que nos ajuda com a realidade do mundo quando estamos acordados!

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