A assistente de alguém fantástico

Na vida, as coisas não vêm como pensamos. Mas, se olharmos bem, sempre carregam um quê de fantástico, capaz de nos desafiar e nos maravilhar ao mesmo tempo.
5 de setembro de 20254 min de leitura

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“Não é o fim que importa, mas o caminho, e o que nele se transforma.”

– Respeitável público… sejam muito bem-vindos ao nosso incrível, super, mega, maravilhoso show! Uma salva de palmas para a nossa assistente:  Laravilhosa!

O público gritou e aplaudiu a assistente de pé. 

Ué… mas ela é a assistente de alguém. Não deveriam aplaudir apenas O alguém?

Acontece que Lara era uma assistente de alguém tão fantástico e amado, que para ela, também havia muito da admiração do público.

No circo, tudo é grandioso. 

E deve ser assim. 

Ele mexe com algo precioso nas pessoas: a imaginação. E é ela que nos dá a sensação de que tudo é possível, ainda que vá diminuindo à medida que crescemos.  

Entre os personagens do circo, estava Donald. 

Mais do que qualquer outro circense, ele fazia o público libertar a mente para imaginar. Contava histórias cheias fantasias, mas os seus olhos brilhavam como se tivesse vivido mesmo cada uma delas.

Um dia, contou sobre um pequeno avião que, ao se perder da rota, entrou num buraco no céu. 

Já viu isso? 

Um buraco no céu? 

Ficava entre a nuvem 3330 e a nuvem 3340. 

De repente, Donald surgia diante do público num avião suspenso por cordas, atravessando um grande portão secreto, como um portal. 

O cenário mudava.

Todos sentiam o seu medo diante do desconhecido e, ao mesmo tempo, o encantamento ao encontrar uma terra de formigas gigantes e elefantes pequeninos.

Parecia que tudo estava ao contrário.

O público alternava entre gargalhadas e corações acelerados, tentando imaginar o que apareceria de novo depois que as emoções se acomodassem.

Donald adorava mostrar que, de repente, tudo pode mudar: por um portal, um sonho, uma rua errada, uma pessoa nova que se conhece ou uma simples visita ao circo. 

Nessas mudanças, Donald brincava com a ordem das coisas: 

O que o público esperava que viesse depois, Donald trazia antes.
O que imaginavam grande, ele trazia pequeno.
E o que deveria ser pequeno aparecia enorme.

Nos bastidores, ele dizia que:

“Na vida, as coisas não vêm como pensamos. Mas, se olharmos bem, sempre carregam um quê de fantástico, capaz de nos desafiar e nos maravilhar ao mesmo tempo.”

Lara era a assistente única e favorita de Donald. 

E não era menos favorita por ser única, porque ele dizia que o valor de alguém não se mede por comparação.

Ela enxergava as histórias dele antes mesmo de ele contar o que faria e, ao seu lado, dava vida a cada uma. 

Quase sempre aparecia no show, e foi o próprio público quem, pela primeira vez, a chamou de Laravilhosa.

Lara era como a sombra de Donald. 

Tinha o olhar de quem admira,
os ouvidos de quem aprende,
os braços de quem se dispõe
e as pernas de quem está sempre disponível.

Juntos, eram uma dupla perfeita de mestre e aprendiz.

Mas, um dia, Donald não encontrou forças para se apresentar. 

Ele já estava ficando velhinho e sentiu que não conseguiria fazer a acrobacia mais esperada daquele espetáculo: pendurar-se numa corda, dar algumas cambalhotas e se lançar por um aro preto, como se mergulhasse num buraco negro encontrado no meio de um campo de rosas.

Em trinta anos de palco, era a primeira vez que não se apresentaria. 

Lara o acompanhava havia dez anos e já o vira encontrar forças por diversas vezes no meio de uma gripe, de uma dor de barriga, ou com a coluna “puxando”, como ele dizia. 

Dessa vez, era diferente. Lara olhou para o Donald e soube o que precisava fazer: 

levar o show do seu mestre adiante.

E assim fez.

Seguiu o plano exatamente como haviam ensaiado. 

Para o público, quase nada mudou. Já existia carinho pela Laravilhosa, e ninguém resistiu a ser conduzido por ela ao mundo das fantasias.

Para Lara, porém, tudo mudou.

Sem formatura ou ritual de passagem, ela deixou de ser aprendiz para se tornar mestre de um novo alguém que, com o tempo, o público também adicionaria um “vilhoso” no nome. 

Naquela noite enquanto Lara ocupava o lugar de Donald pela primeira vez, Lara entendeu o que o fazia tão fantástico:

"Quando tudo muda diante dos seus olhos sem aviso prévio, encontrar um quê de fantasia na mudança é o único caminho possível para seguir com alegria e esperança em qualquer coisa que se faça."​