“Não é o fim que importa, mas o caminho, e o que nele se transforma.”
Jean-Paul Sartre.
– Respeitável público… sejam muito bem-vindos ao nosso incrível, super, mega, maravilhoso show! Uma salva de palmas para a nossa assistente: Laravilhosa!
O público gritou e aplaudiu a assistente de pé.
Ué… mas ela é a assistente de alguém. Não deveriam aplaudir apenas O alguém? Acontece que Lara era uma assistente de alguém tão fantástico e amado, que para ela também havia muita da admiração do público.
No circo, tudo é grandioso. E deve ser assim.
Ele mexe com algo precioso nas pessoas: a imaginação. E é ela que nos dá a sensação de que tudo é possível, ainda que vá diminuindo à medida que crescemos.
Entre os personagens do circo, estava Donald. Mais do que qualquer outro circense, ele fazia o público libertar a mente para imaginar. Contava histórias cheias fantasias, mas os seus olhos brilhavam como ele tivesse vivido mesmo essas histórias.
Um dia, falou sobre um pequeno avião que, ao se perder da rota, entrou num buraco no céu.
Já viu isso? Um buraco no céu?
Ficava entre a nuvem 3330 e a nuvem 3340.
De repente, Donald surgia aos olhos do público num avião suspenso por cordas, atravessando um grande portão secreto, como um portal. De repente, o cenário mudava, e todos sentiam o seu medo diante do desconhecido, mas também o seu encantamento ao encontrar uma terra de formigas gigantes e elefantes pequeninos. Parecia que tudo estava ao contrário e o público alternava entre gargalhadas e corações pulsando ao imaginar o que de novo apareceria depois que se acomodassem as emoções.
Donald adorava mostrar que, de repente, tudo pode mudar, seja por um portal, um sonho, uma rua errada, uma pessoa nova que se conhece, ou uma simples visita ao circo. Nessas mudanças, Donald brincava com a ordem das coisas:
O que o público normalmente esperaria que viesse depois, Donald trazia antes; o que achavam que viria grande, ele trazia pequeno, e o que viria pequeno, ele trazia grande.
Nos bastidores, ele dizia que:
“Na vida as coisas não vem como pensamos. Mas, se olharmos bem, sempre carregam um quê de fantástico, capaz de nos desafiar e nos maravilhar ao mesmo tempo.”
Lara era a assistente única e favorita de Donald. Ela não era menos favorita por ser única, porque ele dizia que o valor de alguém não se mede com comparações. Ela enxergava as histórias dele antes mesmo de ele dizer o que faria e, junto dele, dava vida a cada uma. Quase sempre aparecia no show, e foi o próprio público quem, pela primeira vez, a chamou de Laravilhosa.
Lara era como a sombra de Donald.
Ela tinha o olhar de quem admira, os ouvidos de quem é aprendiz, os braços de quem é disposto, e as pernas de quem está sempre disponível.
Juntos, eles eram uma dupla perfeita de mestre e aprendiz.
Mas, um dia, Donald não encontrou forças para se apresentar. Ele já estava ficando velhinho, e sentiu que não conseguiria fazer a acrobacia mais esperada daquele show: se pendurar numa corda, dar algumas cambalhotas e se lançar num aro preto, como se mergulhasse num buraco negro encontrado no meio de um campo de rosas.
Em trinta anos no seu papel, era a primeira vez que ele não se apresentaria.
Lara o acompanhava havia 10 anos e já o vira encontrar forças por diversas vezes, no meio de uma gripe, de uma dor de barriga, ou com a coluna “puxando”, como ele dizia. Dessa vez, era diferente. Lara sabia o que precisava fazer: levar o show do seu mestre adiante.
E assim fez.
Seguiu o plano exatamente como haviam ensaiado. Para o público, quase nada mudou. Já havia carinho pela Laravilhosa, e ninguém resistiu a ser conduzido por ela ao mundo das fantasias.
Para Lara, porém, tudo mudou!
Sem formatura ou ritual de passagem, ela deixou de ser aprendiz para se tornar mestre de um novo alguém que, com o tempo, o público também adicionaria um “vilhoso” no nome.
Naquela noite em que Lara ocupou o lugar de Donald pela primeira vez, ela entendeu o que o movia para criar e ser tão fantástico:
"Quando tudo muda diante dos seus olhos sem aviso prévio, encontrar um quê de fantasia na mudança é o único caminho possível para seguir com alegria e esperança em qualquer coisa que se faça."