Arquivo de Contos - Conto com Graça https://contocomgraca.com.br/category/contos/ Revelando Jesus pela linguagem da graça Mon, 28 Sep 2026 00:00:44 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://contocomgraca.com.br/wp-content/uploads/2026/07/cropped-Logo-sem-fundo-e1785594342325-1-32x32.png Arquivo de Contos - Conto com Graça https://contocomgraca.com.br/category/contos/ 32 32 O lobo que queria ser bom https://contocomgraca.com.br/o-lobo-que-queria-ser-bom/ https://contocomgraca.com.br/o-lobo-que-queria-ser-bom/#respond Sun, 23 Aug 2026 13:57:04 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=3469 Numa certa aldeia no norte do mundo, escondida no meio de montanhas, vivia um lobo muito incomodado com os olhares e comentários que recebia dos moradores.  Quando as crianças o viam passar, logo diziam: — Olha o lobo mau. E logo os pais respondiam: — Fica perto de mim. O lobo, que não tinha nenhum […]

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Numa certa aldeia no norte do mundo, escondida no meio de montanhas, vivia um lobo muito incomodado com os olhares e comentários que recebia dos moradores. 

Quando as crianças o viam passar, logo diziam:

— Olha o lobo mau.

E logo os pais respondiam:

— Fica perto de mim.

O lobo, que não tinha nenhum desejo de fazer mal a ninguém, voltava para casa triste e mal compreendido.

Ele não escolhera ser lobo. O resto parecia que a aldeia havia escolhido por ele.

Até que um dia decidiu que não deixaria mais os outros contarem sozinhos quem ele era.

— Todos vão ver quem eu realmente sou. Vão perceber o que posso fazer e vão gostar de mim.

Na manhã seguinte, apresentou-se como voluntário no grupo de emergência da aldeia, uma mistura de corpo de bombeiros, ambulância e equipe de resgate.

Era forte, rápido e tinha disposição de sobra.

Logo chegou a primeira ocorrência.

Uma raposa em trabalho de parto precisava ser levada às pressas para o hospital da cidade. O chefe chamou o lobo.

— A raposa está esperando no terceiro marco da estrada. O hospital fica logo depois do quinto. Pegue-a com cuidado e leve-a até lá.

O lobo disparou.
Enquanto corria, imaginava a notícia chegando à aldeia.

LOBO SALVA RAPOSA E FILHOTES.

Talvez as crianças corressem para abraçá-lo.

Talvez os pais finalmente dissessem:

— Olha o lobo bom!

Chegou ao terceiro marco, colocou a raposa nas costas e tornou a correr.

— Lobo… — tentou dizer ela.

Mas ele corria tão depressa que mal conseguia escutar.

Passou pelo quarto marco.
Depois pelo quinto.
E continuou.

A raposa tentou avisá-lo outra vez, mas os pensamentos do lobo estavam mais altos que a voz dela.

Quando finalmente percebeu que havia passado da entrada do hospital, precisou voltar correndo. A raposa chegou exausta, e os filhotes nasceram antes que todos estivessem preparados para recebê-los.

O chefe ficou furioso.
O lobo baixou as orelhas.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Alguns dias depois, chegou outra emergência.

Um coelho tinha ficado preso numa velha armadilha de galhos na floresta, e o chefe logo ordenou:

— Vá até lá, abra a armadilha com cuidado e tire o coelho.

O lobo correu.
Dessa vez daria certo.

Encontrou o coelho encolhido no meio dos galhos, tremendo e cheio de arranhões.

O lobo olhou para a armadilha.
Tirar todos aqueles galhos levaria tempo.
Olhou para a estrada.
O hospital ficava longe.
E pensou que seria muito mais eficiente carregar tudo de uma vez.
Agarrou a armadilha com o coelho dentro e saiu correndo.

— Está apertando… — gemeu o coelho.

Mas o lobo já imaginava o momento em que atravessaria a porta do hospital carregando o animal nos braços.

Apertou a caixa com mais força para não deixá-la cair.

Quando chegou, o coelho estava ainda mais machucado do que antes.

O lobo baixou as orelhas.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Naquela mesma noite, uma casa pegou fogo no meio da floresta.
Antes mesmo de o chefe terminar de explicar a ocorrência, o lobo já estava correndo.

Chegou muito antes dos outros.
As chamas subiam pelo telhado.
Ele olhou ao redor.
Nenhum companheiro.
Nenhuma mangueira.
Nenhuma água.
Então encheu os pulmões e começou a soprar com toda a força.
Só não percebeu de que lado vinha o vento.

As chamas alcançaram os arbustos.
Dos arbustos passaram para uma árvore.
Da árvore, quase chegaram à floresta inteira.
Foram necessárias quatro horas para controlar o incêndio.

Dessa vez, o chefe nem precisou dizer nada.
O lobo baixou as orelhas sozinho.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Na manhã seguinte, não apareceu para trabalhar.
O chefe foi procurá-lo.
Encontrou o lobo deitado em casa, com o focinho entre as patas.

— Eu não entendo. Tudo o que eu queria era fazer o bem. Eu me esforcei o máximo que pude. Corri mais rápido que todo mundo. Dei tudo de mim. E só consegui piorar as coisas.

O chefe sentou-se ao lado dele.

— Talvez esse tenha sido o problema.

O lobo levantou os olhos.

— Você queria tanto que todos percebessem quem você realmente era que, nas três vezes, também não percebeu quem estava diante de você.

O lobo ficou quieto.

— Seus pensamentos estavam tão altos que você não ouviu a raposa, não percebeu o coelho apertado e nem sentiu para onde o vento estava soprando. Você sabe como é ruim não ser visto, lobo.

O lobo olhou para as próprias patas.
O chefe se levantou.
Antes de sair, disse:

— Quem está cheio só de si não serve para servir.

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Ser luz ou não ser https://contocomgraca.com.br/ser-luz-ou-nao-ser/ https://contocomgraca.com.br/ser-luz-ou-nao-ser/#respond Sat, 22 Aug 2026 22:08:37 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=3425 Era uma vez um astro que não tinha luz. Ele passava seus dias admirando as estrelas espalhadas pelo universo. Havia estrelas de diferentes cores, tamanhos e intensidades. Algumas brilhavam tanto que podiam ser vistas a distâncias inimagináveis. Um dia, ele criou coragem e foi falar com Deus. — Deus, o Senhor poderia me transformar em […]

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Era uma vez um astro que não tinha luz.

Ele passava seus dias admirando as estrelas espalhadas pelo universo.

Havia estrelas de diferentes cores, tamanhos e intensidades. Algumas brilhavam tanto que podiam ser vistas a distâncias inimagináveis.

Um dia, ele criou coragem e foi falar com Deus.

— Deus, o Senhor poderia me transformar em uma estrela? Eu também queria ter luz.

Deus ouviu seu pedido e respondeu:

— Bom, acho que posso fazer isso. Você poderá se tornar uma estrela linda. Brilhará intensamente por bilhões de anos. Será forte, majestosa, e sua luz atravessará distâncias imensas. Da Terra, as pessoas vão até ajustar o telescópio só para encontrar você no céu.

O pequeno astro quase não cabia em si de tanta alegria.

Já conseguia se imaginar brilhante, poderoso, extraordinário.

Mas Deus continuou:

— Ou você pode ouvir e aceitar uma outra proposta que eu tenho pra você. Você continuará sem luz própria, mas poderá permanecer perto de mim. E, quando a minha luz alcançar você, você refletirá a minha luz na escuridão da Terra. Você não será a fonte. Mas haverá noites em que, por meio de você, as pessoas conseguirão enxergar.

O pequeno astro olhou novamente para as estrelas.

Elas pareciam ainda mais brilhantes agora.

— Tá, mas eu também vou brilhar?

— Vai, mas não desse jeito que você está pensando. Haverá épocas em que quase toda a luz que você refletir poderá ser vista. Nesses dias, vão chamar você de Lua Cheia. Muitas pessoas vão parar apenas para olhar para você. Crianças procurarão você pela janela. Poetas escreverão sobre a sua beleza.

Mas Deus acrescentou:

— E haverá momentos em que, da Terra, quase ninguém conseguirá ver a luz que você reflete. Vão chamar você de Lua Nova.

O astro então ficou confuso e falou:

— Mas, Deus, qual é o propósito disso? Haverá dias em que o Senhor vai me iluminar, mas as pessoas não verão essa luz e eu não vou servir para nada?

E Deus respondeu:

— Não confunda, pequeno astro, o quanto as pessoas poderão ver de você com o quanto estou com você. Mesmo quando não conseguirem ver, a minha Luz continuará alcançando você. Você continuará perto de mim e continuará servindo ao meu propósito.

Depois de algum tempo, Deus perguntou:

— O que você escolhe?

O pequeno astro olhou mais uma vez para todas aquelas estrelas brilhantes.

Elas continuavam lindas.

Mas agora ele sabia o que queria.

— Senhor, o que mais eu poderia querer se é só perto de Ti que a tua Luz me alcança?

Hoje, quando a nossa noite chega, ainda há luz na escuridão.

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O cacto e o girassol https://contocomgraca.com.br/o-cacto-e-o-girassol/ https://contocomgraca.com.br/o-cacto-e-o-girassol/#comments Tue, 04 Nov 2025 02:30:53 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1748 Alguém achou por bem fazer de um cacto e de um girassol vizinhos de vaso, bem no canto da sala. O girassol, jovem e recém-chegado, estava todo animado para fazer amigos, mas foi ficar justo ao lado de um cacto rabugento. Embora muito diferentes, os dois precisavam dividir o mesmo sol da única janela ensolarada […]

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Alguém achou por bem fazer de um cacto e de um girassol vizinhos de vaso, bem no canto da sala.

O girassol, jovem e recém-chegado, estava todo animado para fazer amigos, mas foi ficar justo ao lado de um cacto rabugento. Embora muito diferentes, os dois precisavam dividir o mesmo sol da única janela ensolarada da casa.

Todos os dias, o cacto via o girassol se inclinando para o leste pela manhã, seguindo o sol até o oeste ao longo do dia, e retornando ao leste durante a noite para começar tudo de novo no dia seguinte.

Já o girassol, ao girar diante do cacto, o via sempre imóvel, sem parecer se importar com o sol que o iluminava.

Um parecia imaturo e desesperado pela luz aos olhos do outro, que, por sua vez, parecia indiferente e acomodado aos olhos do um.

Na sua dança de todos os dias, o girassol entregava um louvor ao sol que tanto o provia. Ele se esticava porque sentia todo um lado do caule o empurrando em direção à luz. Era o que sabia fazer e fazia com alegria.

Quando a luz mudou

Numa certa semana nublada, o girassol não dançou.

Não vinha luz solar de nenhum canto da sala, e ele ficou confuso e deprimido. Foi parar virado para o cacto, que, como sempre, não queria papo.

Foi aí que o girassol percebeu que o cacto, na verdade, não era imóvel e tampouco indiferente. Enquanto ele se via triste sem a luz direta do sol, o cacto nunca parecera tão confortável. Estava mais “cheinho” por não perder tanta água e parecia até sorrir, como quem estivesse descansando.

O girassol percebeu que os poros do cacto fechavam de dia e abriam de noite, e não resistiu a provocar o vizinho que antes lhe parecia tão indiferente:

– Ora, ora… vejo que eu não sou o único que me mexo por aqui – provocou o girassol.

– E eu não sou o único rabugento – respondeu o cacto. – Bastou uma semana sem sol para você vir me provocar com essa cara de abandonado.

O QUE CADA UM NÃO CONSEGUIA VER

Passadas as primeiras provocações, o girassol entendeu que o cacto sempre parecia de cara fechada porque vivia no limite entre o sol que era necessário e o sol que o machucava. Dia após dia, o cacto suportava a ferida do calor e fechava seus poros. Seus muitos espinhos eram sua proteção, mas por baixo deles havia caules fortes e suculentos que, mesmo sem folhas, faziam fotossíntese.

Nessa troca nublada, o cacto viu seu novo amigo deprimido, mostrando sua dor profunda e o quanto sentia falta de dançar ao encontro da luz. O que antes lhe parecera desespero agora começava a parecer devoção. Talvez só o amor explicasse tanta coragem de se entregar à luz. Mesmo sabendo que um vento forte poderia dobrar suas hastes, o girassol nunca deixava de se estender em direção ao sol.

Os vizinhos de vaso agora sempre esperavam os fins de tarde para conversar. O girassol contava o que via enquanto girava, e a alegria que sentia quando, no ápice, ficava de frente para o sol. O cacto compartilhava  suas estratégias para reter água, mesmo nos dias muito quentes.

Um passou a ser admirado pela devoção e alegria aos olhos do outro, que, por sua vez, passou a ser admirado pela inteligência e resistência aos olhos do um.

APRENDER A PERMANECER

Depois de um tempo, começou a ficar difícil para o girassol girar. À medida que amadurecia, seu movimento diminuia até que passou a permanecer voltado para o leste. A princípio, ficou triste por perder sua juventude e parar de dançar, mas logo ele apreciou a nova fase, pois tinha aprendido o valor de permanecer firme, mesmo nas mudanças.

Os amigos seguiam conversando e um belo dia experimentaram um pequeno milagre: nasceu uma flor no vaso do cacto. Agora, ele também saberia o que é ser vibrante e perfumado e abraçou com alegria e intensidade sua delicadeza na flor que duraria apenas alguns dias.

Quando há compreensão e respeito, os cactos florescem e os girassóis resistem.

Um pouco de ciência

Girassóis jovens acompanham a trajetória do sol ao longo do dia e, durante a noite, voltam a se orientar para o leste, preparando-se para a manhã seguinte. Esse movimento, chamado heliotropismo, está ligado ao crescimento desigual dos dois lados do caule e ao relógio biológico da planta. À medida que amadurecem, os girassóis diminuem esse movimento e tendem a permanecer voltados para o leste.

Muitos cactos, por sua vez, desenvolveram uma estratégia quase oposta para viver sob sol intenso e pouca água: mantêm seus estômatos fechados durante o dia e os abrem principalmente à noite, reduzindo a perda de água. Assim, enquanto o girassol jovem se move em direção à luz, o cacto aprende a administrar o encontro com ela.

Duas plantas diante do mesmo sol — cada uma encontrando uma forma diferente de permanecer viva.

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Cordeiro em pele de Lobo https://contocomgraca.com.br/cordeiro-em-pele-de-lobo/ https://contocomgraca.com.br/cordeiro-em-pele-de-lobo/#respond Fri, 12 Sep 2025 02:00:42 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=100 “Ser cristão significa perdoar o que é imperdoável, porque Deus perdoou o que é imperdoável em você.” C.S. Lewis Assustadoramente encantador, o imponente lobo era o vilão favorito das fábulas mais lembradas pelas crianças.  Todo orgulhoso por acompanhar infâncias inteiras e apresentar o medo aos pequeninos, ele sabia que seria uma presença marcante quando as […]

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"Ser cristão significa perdoar o que é imperdoável, porque Deus perdoou o que é imperdoável em você.”

Assustadoramente encantador, o imponente lobo era o vilão favorito das fábulas mais lembradas pelas crianças. 

Todo orgulhoso por acompanhar infâncias inteiras e apresentar o medo aos pequeninos, ele sabia que seria uma presença marcante quando as crianças chegassem às páginas do meio da história. 

Quando ele aparecia, o clímax era perfeito!

Com instinto de caçador, o lobo farejava e mirava na inocência dos personagens. 

E acertava para além dos livros, naqueles que ainda acreditavam que a vida seria feita de brincadeiras e doces e que a parte chata seria parar tudo para tomar banho.

O lobo mau talvez nem soubesse por que era mau, mas sabia que ser sagaz lhe era tão natural quanto o ronco da própria barriga.

Até que um belo dia, ele se viu diferente nas páginas do meio da história.

Dessa vez, foi o lobo quem foi atingido no clímax.

Um encontro acertou em cheio até o seu estômago.

Eis que veio um Cordeiro.
Não fugiu. Não mostrou os dentes.
Veio sem resistência ou medo, manso e humilde, disposto a se entregar.
E, inexplicavelmente, livre.

Foi então que o lobo se viu.

E percebeu que ele, o grande caçador, era um animal escravo do seu estômago, como aquele cordeiro nunca fora. 

Em vez de imponente, agora se enxergava mísero e sujo. 

Daquele encontro no meio do caminho, não conseguiu desviar do que aconteceu a si mesmo e, pela primeira vez, desejou ser livre, como era aquele cordeiro. 

Seus dentes obedeciam à fome.
Seus passos obedeciam ao instinto.
Sua sagacidade obedecia ao desejo de saciar a si mesmo.

O lobo que parecia senhor de tudo nunca havia sido senhor de si.

E diante daquele Cordeiro, que não precisava defender a própria vida para permanecer livre, nasceu nele um desejo que jamais conhecera:

Ser livre como Ele.

Era para ter sido só mais uma história de alguém com um encontro que cessaria momentaneamente a sua fome.

Como todas as outras vezes.

Comer. Saciar-se. Tornar a sentir fome. Caçar novamente.

Mas aquele Cordeiro era diferente.

O lobo pensou que havia encontrado mais uma presa. Não sabia que havia encontrado o fim de sua fome.

E, naquele encontro no meio do caminho, seu estômago parou de roncar para sempre.

O lobo mau já não precisava saber por que era mau.

A fome que havia conduzido seus passos, mostrado seus dentes e escolhido suas vítimas já não precisava mais ser alimentada.

E quem olhasse depressa talvez ainda visse os pelos, os dentes e a aparência de sempre.

Mas, por baixo daquela pele de lobo, havia nascido a mansidão de um cordeiro.

O mais improvável personagem que uma fábula poderia contar:

um cordeiro em pele de lobo.

um pouco de contexto bíblico

Jesus encontrou uma mulher samaritana junto a um poço. Ela havia ido buscar água para uma sede comum. Jesus, porém, conduz a conversa para uma sede mais profunda.

Ele lhe fala de uma água diferente:

“Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.”

Qual é o ronco da sua barriga?

Há fomes e sedes que nos fazem voltar sempre ao mesmo lugar.

Todos carregamos uma sede, ou algum ronco na barriga.

Uma necessidade de aprovação.
De controle.
De reconhecimento.
De segurança.
De ser amado.
De vencer.
De provar alguma coisa.
De não ser ferido outra vez.

E, quando acreditamos que alguma pessoa, conquista ou circunstância poderá finalmente silenciar esse ronco, somos capazes de agir de maneira obstinada para consegui-la.

Caçamos.

Insistimos.
Controlamos.
Ferimos.
Acumulamos.
Competimos.
Exigimos dos outros aquilo que esperamos que nos faça sentir inteiros.

Por alguns instantes, talvez pareça funcionar.

A fome se cala.

Mas depois o ronco volta.

E, sem perceber, voltamos ao mesmo movimento: procuramos outra presa, outro poço, outra forma de satisfazer aquilo que continua pedindo mais.

Jesus não aparece apenas para ensinar o lobo a controlar melhor seus impulsos ou a se comportar como um cordeiro.

Ele encontra a fome por trás do ronco.

Enquanto não reconhecemos o que ronca dentro de nós, podemos continuar atacando pessoas, circunstâncias e até a nós mesmos, esperando que a próxima conquista finalmente nos dê aquilo que a anterior não conseguiu dar.

Jesus nos convida a olhar para além do ronco.

Para além da caça.

Para além do poço ao qual continuamos voltando.

E perceber a fome.

Qual é o ronco da sua barriga?

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A mulher que foi encontrada https://contocomgraca.com.br/a-mulher-que-foi-encontrada/ https://contocomgraca.com.br/a-mulher-que-foi-encontrada/#comments Wed, 10 Sep 2025 01:00:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=977 Maria tinha visto morrer o seu melhor amigo.  Ainda estava escuro quando foi ao túmulo. Talvez não soubesse exatamente o que esperava encontrar ali, mas sabia que precisava ficar perto dele.  Mas a pedra estava removida. E o corpo não estava ali. No buraco entre a tristeza do luto e o espanto diante de um túmulo […]

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Maria tinha visto morrer o seu melhor amigo. 

Ainda estava escuro quando foi ao túmulo. Talvez não soubesse exatamente o que esperava encontrar ali, mas sabia que precisava ficar perto dele. 

Mas a pedra estava removida.

E o corpo não estava ali.

No buraco entre a tristeza do luto e o espanto diante de um túmulo vazio, cabiam pensamentos demais. 

Maria chorava.

Três dias haviam se passado desde a morte dele. 

Ela estava cansada porque o havia seguido até o fim, em todo o caminho do sofrimento, e viu toda a dor, toda a angústia, todo o sangue. 

Ela não se permitiu afastar dele, não conseguiria fazer isso depois de experimentar da água que jorrou dele, até o final. 

Ele havia falado sobre voltar. Mas será que ela tinha entendido direito? 

Era tanta coisa extraordinária no meio do ordinário. Tantas parábolas no meio da história real que ele estava construindo.

De repente, viu um homem que perguntou:

— Mulher, por que você está chorando? Quem você está procurando?

Ela pensou que fosse o jardineiro.

Talvez pudesse indicar onde haviam colocado o corpo.

E então, uma voz a chama pelo seu nome: 

— Maria!

Podia ser qualquer um. Maria era conhecida por muitos. Ao longo da vida, foi nomeada por quem achava que sabia tudo sobre sua história, e quem a nomeava não tinha nome.

Mas ela conhecia a entonação do seu próprio nome na voz que mais amava.

Era a mesma voz que a libertara, logo que se conheceram, dos sete demônios que a aprisionavam.

Desde então, aquela voz trazia alívio à sua alma cansada e sobrecarregada, incapaz de carregar sozinha todo o peso.

Como esquecer e viver sem isso agora?

Ela tinha encontrado uma paz e uma vida que nunca antes havia experimentado. Seria eternamente grata ao dono daquela voz. Andaria com ele sem medo a despeito do que pudesse acontecer a ela.

Então, no auge da sua tristeza, ela ouve o seu nome e o reconhece imediatamente.

Era um nome tão comum dito de uma forma tão pessoal e tão íntima.

Não foi para um grupo de pessoas. Não foi em uma sala onde ela estava sentada numa cadeira o assistindo falar da segunda fileira. Tampouco foi um recado dado por outro alguém.

Ele estava ali, diante dela, e dizia o seu nome.

Transbordando de alegria, ela respondeu:

— Mestre!

um pouco de contexto bíblico

Há uma imagem anterior no Evangelho de João que torna esse encontro ainda mais bonito.

Ao falar sobre o Bom Pastor, Jesus diz que ele

“chama pelo nome as suas próprias ovelhas”

e que elas o seguem porque conhecem a sua voz.

Alguns capítulos depois, no jardim, Maria se mostra a ovelha que reconhece a voz do seu pastor. Em meio à dor e à confusão, ela não reconhece Jesus pela aparência. É quando escuta seu próprio nome na voz dele que finalmente sabe quem está diante dela.

Na Bíblia, ser chamado pelo nome comunica mais do que identificação. É a linguagem de um Deus que não conhece pessoas apenas como parte de uma multidão, mas de maneira pessoal.

Depois de chamar Maria pelo nome, Jesus também lhe confia uma missão: ela deve ir aos discípulos e anunciar o que viu. O encontro que começa de maneira tão íntima não termina fechado entre os dois.

Quem é encontrado por Jesus também é enviado por Ele.

Talvez seja essa uma das maravilhas da história desse encontro: antes de Maria conseguir compreender tudo o que havia acontecido, Jesus mostrou que ainda a conhecia.

E a chamou como o Bom Pastor havia prometido:

pelo nome.

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A assistente de alguém fantástico https://contocomgraca.com.br/a-assistente-de-alguem-fantastico/ https://contocomgraca.com.br/a-assistente-de-alguem-fantastico/#respond Sat, 06 Sep 2025 02:08:54 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=682 “Não é o fim que importa, mas o caminho, e o que nele se transforma.” Jean-Paul Sartre – Respeitável público… sejam muito bem-vindos ao nosso incrível, super, mega, maravilhoso show! Uma salva de palmas para a nossa assistente:  Laravilhosa! O público gritou e aplaudiu a assistente de pé.  Ué… mas ela é a assistente de […]

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“Não é o fim que importa, mas o caminho, e o que nele se transforma.”

– Respeitável público… sejam muito bem-vindos ao nosso incrível, super, mega, maravilhoso show! Uma salva de palmas para a nossa assistente:  Laravilhosa!

O público gritou e aplaudiu a assistente de pé. 

Ué… mas ela é a assistente de alguém. Não deveriam aplaudir apenas O alguém?

Acontece que Lara era uma assistente de alguém tão fantástico e amado, que para ela, também havia muito da admiração do público.

No circo, tudo é grandioso. 

E deve ser assim. 

Ele mexe com algo precioso nas pessoas: a imaginação. E é ela que nos dá a sensação de que tudo é possível, ainda que vá diminuindo à medida que crescemos.  

Entre os personagens do circo, estava Donald. 

Mais do que qualquer outro circense, ele fazia o público libertar a mente para imaginar. Contava histórias cheias fantasias, mas os seus olhos brilhavam como se tivesse vivido mesmo cada uma delas.

Um dia, contou sobre um pequeno avião que, ao se perder da rota, entrou num buraco no céu. 

Já viu isso? 

Um buraco no céu? 

Ficava entre a nuvem 3330 e a nuvem 3340. 

De repente, Donald surgia diante do público num avião suspenso por cordas, atravessando um grande portão secreto, como um portal. 

O cenário mudava.

Todos sentiam o seu medo diante do desconhecido e, ao mesmo tempo, o encantamento ao encontrar uma terra de formigas gigantes e elefantes pequeninos.

Parecia que tudo estava ao contrário.

O público alternava entre gargalhadas e corações acelerados, tentando imaginar o que apareceria de novo depois que as emoções se acomodassem.

Donald adorava mostrar que, de repente, tudo pode mudar: por um portal, um sonho, uma rua errada, uma pessoa nova que se conhece ou uma simples visita ao circo. 

Nessas mudanças, Donald brincava com a ordem das coisas: 

O que o público esperava que viesse depois, Donald trazia antes.
O que imaginavam grande, ele trazia pequeno.
E o que deveria ser pequeno aparecia enorme.

Nos bastidores, ele dizia que:

“Na vida, as coisas não vêm como pensamos. Mas, se olharmos bem, sempre carregam um quê de fantástico, capaz de nos desafiar e nos maravilhar ao mesmo tempo.”

Lara era a assistente única e favorita de Donald. 

E não era menos favorita por ser única, porque ele dizia que o valor de alguém não se mede por comparação.

Ela enxergava as histórias dele antes mesmo de ele contar o que faria e, ao seu lado, dava vida a cada uma. 

Quase sempre aparecia no show, e foi o próprio público quem, pela primeira vez, a chamou de Laravilhosa.

Lara era como a sombra de Donald. 

Tinha o olhar de quem admira,
os ouvidos de quem aprende,
os braços de quem se dispõe
e as pernas de quem está sempre disponível.

Juntos, eram uma dupla perfeita de mestre e aprendiz.

Mas, um dia, Donald não encontrou forças para se apresentar. 

Ele já estava ficando velhinho e sentiu que não conseguiria fazer a acrobacia mais esperada daquele espetáculo: pendurar-se numa corda, dar algumas cambalhotas e se lançar por um aro preto, como se mergulhasse num buraco negro encontrado no meio de um campo de rosas.

Em trinta anos de palco, era a primeira vez que não se apresentaria. 

Lara o acompanhava havia dez anos e já o vira encontrar forças por diversas vezes no meio de uma gripe, de uma dor de barriga, ou com a coluna “puxando”, como ele dizia. 

Dessa vez, era diferente. Lara olhou para o Donald e soube o que precisava fazer: 

levar o show do seu mestre adiante.

E assim fez.

Seguiu o plano exatamente como haviam ensaiado. 

Para o público, quase nada mudou. Já existia carinho pela Laravilhosa, e ninguém resistiu a ser conduzido por ela ao mundo das fantasias.

Para Lara, porém, tudo mudou.

Sem formatura ou ritual de passagem, ela deixou de ser aprendiz para se tornar mestre de um novo alguém que, com o tempo, o público também adicionaria um “vilhoso” no nome. 

Naquela noite enquanto Lara ocupava o lugar de Donald pela primeira vez, Lara entendeu o que o fazia tão fantástico:

"Quando tudo muda diante dos seus olhos sem aviso prévio, encontrar um quê de fantasia na mudança é o único caminho possível para seguir com alegria e esperança em qualquer coisa que se faça."​

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A Escola do Nascer https://contocomgraca.com.br/a-escola-do-nascer/ https://contocomgraca.com.br/a-escola-do-nascer/#comments Wed, 03 Sep 2025 21:46:36 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=701 “No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo.”​ 1 João 4:18 No minuto antes de Cláudia nascer, ela ficou apavorada. Disseram a ela que, nesse mundo, havia seres muito maiores do que ela seria quando chegasse aqui. Já tinha ouvido vozes de dentro da barriga e, algumas vezes, essas vozes […]

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"No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo."​

No minuto antes de Cláudia nascer, ela ficou apavorada.

Disseram a ela que, nesse mundo, havia seres muito maiores do que ela seria quando chegasse aqui. Já tinha ouvido vozes de dentro da barriga e, algumas vezes, essas vozes soavam bem assustadoras. 

Eu não sei se vocês sabem, mas o passar do tempo para quem está dentro de uma barriga é diferente do que é para nós, que estamos fora dela. 

Para nós, parece que tudo passa muito rápido: num dia, ouvimos o coração do novo bebê e, no outro, parece que ele já está forte o suficiente para chutar com os pés. 

Não tem como essas transformações tão grandes acontecerem tão depressa assim. 

É por isso que o tempo da barriga é diferente. 

O que, para nós, parece um minuto, lá dentro parece uma hora. 

Por isso, no minuto antes de Cláudia nascer, ainda faltaria uma hora no tempo da barriga. 

De repente, um clarão incomodou seus olhos e ela viu um portal. Embora não soubesse para onde ia, sentia uma paz vindo dali. 

Logo entendeu que era um convite a entrar. 

Passou pelo portal e encontrou um lugar lindo, com muitas flores e um sol quentinho sobre uma bela casa onde estava escrito: Escola do Nascer. 

Cláudia foi recebida na porta por alguém muito sorridente, que lhe disse:

– Seja muito bem-vinda, Cláudia! Essa é a Escola do Nascer. Aqui é o lugar aonde todos vêm no minuto antes de passar pelo portal da vida na Terra. Você está inscrita na aula 001, que já vai começar.

Ela viu uma porta e, ao abri-la, encontrou uma sala tão grande que nem conseguia enxergar o final. 

O espaço estava cheio de bebês para nascer, entrando por várias portinhas espalhadas pelas paredes. A aula começou com as boas-vindas e a calma de um professor que nem parecia precisar liberar a todos dali em apenas um minuto do tempo da Terra. 

Foi aí que Cláudia percebeu: naquele lugar o tempo passava ainda mais devagar. 

Um minuto da Terra equivalia a um dia inteiro ali.

O professor iniciou a aula de Instintos Básicos de Sobrevivência.

Ensinou a chorar quando sentisse dor, fazer cara feia quando não gostasse de alguma coisa, fazer cara de assustada quando não se sentisse confortável, usar as pernas pra correr em caso de perigo e os braços para bater quando o perigo estivesse próximo demais. 

Explicou também que, diante de uma ameaça, o corpo inteiro entraria em estado de alerta, ganhando energia e força para reagir. Naquele momento, os músculos poderiam parecer mais fortes do que o normal. 

A esse estado ele chamou de coragem.

Depois, entrou o professor da aula 002: Instintos Básicos de Socialização.

Ali, Cláudia aprendeu que um sorriso nunca era apenas um sorriso e, dependendo de como se mexem o rosto e o corpo se mexessem, ele poderia significar coisas completamente diferentes. 

Ela aprendeu a fazer a cara de charme, a de engraçada, a do “por favor”, a do “obrigada” e até aquela que usamos quando fingimos ter entendido o que alguém acabou de dizer.

A última aula daquele dia se chamava Manuais. 

“Ufa, finalmente algo mais concreto”, pensou. 

Disseram que uma mulher a receberia depois que ela passasse pelo portal e começaria a ensinar o conteúdo do livro Guia Prático para Viver. 

Ela ensinaria Cláudia a comer, falar, andar e a levar sempre uma blusa ao sair de casa, mesmo que o dia parecesse quente com possibilidade de esfriar mais tarde. 

Depois, outras pessoas apareceriam ao longo da vida para ensinar lições do meio e do final do livro. 

Mas a primeira pessoa seria sempre aquela que mais a conheceria e, enquanto estivesse presente, lhe ofereceria um lugar onde pudesse ser recebida com amor.

– Amor? O que é isso exatamente?  – Cláudia perguntou

O tempo havia esgotado. 

Cláudia passou pelo portal quase empurrada e logo usou o primeiro instinto que aprendera: 

Cláudia chorou porque não estava preparada para viver.

Foi então que ouviu alguém muito afoito chegando perto. 

Logo depois, sentiu-se quentinha.

E passou as horas e os dias seguintes sendo alimentada, abraçada e ouvindo vozes tão gostosas que, pouco a pouco, tudo se acalmou dentro dela.

O medo de viver foi embora.

E Cláudia pensou:

– Ah… deve ser isso o amor!

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“E o perigo maior é a gente se acostumar com o que não deveria.”

Manuela sempre teve problemas com meias e meios. 

Um joanete no pé direito fazia com que sentisse dor sempre que usava meias por muito tempo. Batava sentir o incômodo do tecido apertando para se lembrar de que não gostava daquele pé por causa do joanete. 

Talvez por isso também ela nunca tenha gostado do frio. 

Quando o inverno chegava, vivia com um cobertor pela casa, enrolando os pés para não precisar das meias.

Os meios eram outro tipo de problema: ela gostava demais. 

Dizia que os começos e os fins são sempre uma bagunça, mas os meios são a calmaria da vida. 

Até o furacão tem um meio, o olho, em que os ventos enfraquecem e é possível até enxergar o céu azul. 

Manuela não gostava daquele frio na barriga dos começos, que avisa que existe alguma coisa desconhecida logo a frente. Também não gostava da ausência que os fins anunciam, nem daquela sensação de perda que aparece acompanhá-los.

Mas os meios…

Os meios ela fazia o possível para esticar o máximo que pudesse.

Seu sobrinho de cinco anos era um garotinho cheio de energia que adorava correr para todos os lados. 

Tinha olhos expressivos, sempre empolgados, e sua brincadeira preferida era o pega-pega. 

Mas foi ele quem acabou sendo pego num detalhe pela tia: 

estava sempre de meias.

Não havia chinelo, tênis ou sapatos capaz de convencer aquela criança a usá-los dentro de casa. Nem mesmo na casa da avó, onde corria livremente no quintal. 

Para ele, ficar de meias parecia uma insistência pessoal, uma marca registrada, talvez até a sua individualidade assegurada. 

Não havia quem o mudasse.

O quintal da avó, com seu piso de cimento, era palco favorito da passagem daquelas meias que não durariam uma semana sem ganhar ao menos um furo.

Um dia, observando o sobrinho correr de meias, Manuela logo percebeu a ondulação na lateral do pé direito da criança, bem perto do dedão.

– Ué, como ele pode gostar tanto das meias com um joanete no pé direito?

Ficou intrigada.

Preocupada até.

Pensou que talvez o menino sentisse tanto frio nos pés que preferisse suportar o incômodo da meia. 

Sem demora, foi logo perguntar para o menininho que, dando risada, respondeu:

– Não sinto frio nenhum. Nem nos pés e nem nos braços. 

Ela insistiu para que ele explicasse por que as meias eram tão importantes.

Ele olhou para ela, desconfiado, e escondeu os pés debaixo das almofadas. 

Depois confessou: usava as meias para esconder as unhas dos pés, que estavam sempre grandes. 

Foi aí que Manuela se lembrou que o menino tinha um verdadeiro horror à ideia de um cortador de unhas chegar perto dos seus dedos. 

Foi uma risada só!

A meia servia para ele como uma máscara para quem quer esconder algo de si. 

Enquanto ninguém visse as unhas grandes, ele se pouparia de ser convencido, o que sempre acabava no mesmo choro e berros de: 

– EU NÃO VOU DEIXAR CORTAR!

Tudo por causa de um único corte errado, muito tempo antes, quando a lâmina do cortador encostou na pele ao lado da unha do mindinho.

Manuela então gastou o seu melhor discurso tentando convencer o menino a ter coragem.

Explicou que não fazia muito sentido suportar o incômodo das meias apertando o joanete só pelo medo de que o cortador encostasse novamente na pele do dedinho. 

Em vão! 

A criança não abriria mão tão cedo da segurança das suas meias.

A mãe que lutasse para ter um estoque interminável de meias. 

Mas, para Manuela, o principal problema era pensar no prazer que o menino não conhecia, de tirar as meias, encostar os pés no chão frio e andar descalço num dia de calor.

Foi então que percebeu.

As meias do seu garotinho eram como os seus próprios meios esticados ao máximo: 

Tão aparentemente seguros, mas ao mesmo tempo tão enganosos. 

Meias e meios que ficam mais tempo do que deveriam, ainda que furados. 

Meias e meios que permanecem tanto tempo que quase fazem esquecer que existe outra sensação possível.

A de tirar aquilo que aperta

e tocar, finalmente,

o chão frio.

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A garota da perna em X https://contocomgraca.com.br/a-garota-da-perna-em-x/ https://contocomgraca.com.br/a-garota-da-perna-em-x/#respond Wed, 27 Aug 2025 19:50:46 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=777 “No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.” Aristóteles Beatriz era uma dançarina com joelhos tortos, que pareciam formam um X porque apontavam para dentro das coxas.  O que poderia parecer um problema para qualquer pessoa, não era para os dançarinos. Eles sabiam que ter as pernas em X podia […]

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"No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas."

Beatriz era uma dançarina com joelhos tortos, que pareciam formam um X porque apontavam para dentro das coxas. 

O que poderia parecer um problema para qualquer pessoa, não era para os dançarinos. Eles sabiam que ter as pernas em X podia tornar mais belos alguns movimentos da dança, como elevar uma perna no atiti, perfeitamente marcado por Beatriz.

Ela tinha olhos grandes, que eram quase janelas para os seus pensamentos e denunciavam qualquer emoção. 

Mas na dança, se expressar demais nunca seria problema.

Beatriz amava dançar! 

Dançar era encontrar a si mesma. 

Era entrega ao outro e conquista de si ao mesmo tempo. 

Sentia que a música a convidava a se mover e, quando dançava, ocupava um lugar que era só seu no mundo.

Até que, um dia, acordou com uma forte dor na lombar. 

Pensou que fosse cansaço dos ensaios. Logo passaria.

Não passou.

As dores vinham todos os dias e aumentavam ainda mais quando dançava. Dançar foi ficando mais difícil, e sua perna já não subia tanto no seu tão belo atiti. 

Tentou remédios, truques e todos os jeitinhos de quem ainda não se convenceu a ir ao médico. 

Nada resolveu.

Da medicina também não veio a solução, e nem a causa. 

Beatriz teve medo de precisar fazer o que parecia mais sensato: 

parar de dançar.

Relutou. 

Brigou consigo, com todo mundo e até com Deus. 

Como dizer às suas pernas em X e seus olhos expressivos demais que ela não mais dançaria?  

Não, não havia possibilidade de parar! 

Mas, com o tempo, uma dose de dor e outra de medo, quase qualquer convicção pode ser vencida.

Beatriz cedeu e parou.

No espelho, agora via pernas tortas, que batiam uma na outra ao andar e já não lhe parecia bonitas em saias. 

Seus olhos expressivos demais denunciavam o tamanho da tristeza de quem sentia a dor da sua primeira grande perda na vida.

Era um combo de dor física, da perda de fazer o que mais amava e da frustração de ter perdido para si mesma. 

Entrou então no limbo que todo mundo entra um dia:

aquele lugar em que já se aceitou despedir de um ciclo, mas ainda não se consegue enxergar o próximo.

Nesse lugar sem muita esperança, os sentidos parecem se aguçar, como se esperássemos um novo movimento de vida fora de nós para reacender a vida dentro de nós. 

É nesse momento vazio que, às vezes, percebemos em algo comum um toque de extraordinário.

Comum era comer os bolos de chocolate da sua mãe. 

Todas semana, os bolos faziam a alegria da casa. A pausa para comer um pedaço ainda quentinho, recém-saído do forno, era um momento único de prazer que durava exatamente o tempo de o bolo esfriar.

Numa quinta-feira qualquer, Beatriz decidiu preparar, ela mesma, o bolo de chocolate de sempre.

Mas fez algo diferente. 

Ousou colocar uma colher de geléia de pimenta na massa clássica.

E seu cérebro deu um click. 

Tentou outra mudança de ingrediente, depois outra no preparo, e percebeu uma mudança em si mesma. 

Descobriu um novo lugar seu, mas que sempre estivera ali, no chão da cozinha da casa da sua mãe.

Assim como um dia dançou pela primeira vez e, em outro, ousou mudar uma receita, talvez houvesse outros “primeiros” esperando por ela.

Seu campo de pensamentos se abriu.

Começou a imaginar caixinhas espalhadas pela vida, escondidas e guardando dentro delas diferentes versões de quem ela poderia ser. 

Quantas caixinhas ainda poderia encontrar?

Beatriz se permitiu imaginar advogada, nadadora, professora de biologia, economista… 

E, aos poucos, aprendeu a reconhecer suas caixinhas verdadeiras.

Percebeu que elas eram mais diversas do que únicas.

Eram tantas que pareceu injusto permitir que a perda de uma fechasse todas as outras.

Em cada nova caixinha aberta, descobria características que nunca havia reconhecido em si mesma, ou que, até então, pareciam ser seus “defeitos”, como um dia pensou das suas pernas em X e dos seus olhos expressivos demais. 

Aprendeu, então, que mesmo as caixinhas mais queridas não precisam ser eternas.

Na vida, nada é tão permanente que impeça a sensatez de deixar ir, e nada é tão passageiro que não mereça, às vezes, a coragem de insistir.

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As histórias do passado movediço https://contocomgraca.com.br/as-historias-do-passado-movedico/ https://contocomgraca.com.br/as-historias-do-passado-movedico/#respond Tue, 26 Aug 2025 19:32:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=855 “Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade.”​ Albert Einstein Juliana adorava ver fotos antigas.  As mais velhas que tinha […]

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“Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade.”​

Juliana adorava ver fotos antigas. 

As mais velhas que tinha eram da juventude de sua avó, mas eram pouquíssimas,  esquecidas em um álbum amarelado. 

Parada diante de uma foto, prestava atenção nos detalhes das roupas, nos cabelos, nas expressões, no cenário ao fundo e se pegava imaginando uma história que encaixasse perfeitamente no que parecia ser aquele momento registrado. 

Na sala da casa da sua mãe, havia um porta-retrato com uma foto do seu aniversário de nove anos. 

Nela, Juliana aparecia emburrada, fazendo o bico das crianças contrariadas, atrás do bolo e cercada por crianças sorridentes na hora do parabéns. 

Durante anos, cada visita que reparava no porta-retrato ouvia sempre a mesma versão: 

Juliana havia perdido injustamente uma partida de jogo de tabuleiro instantes antes do parabéns.

Ela ria ao contar, mas ainda sentia uma pontada da raiva daquela garotinha de nove anos que havia sido injustiçada pelos próprios amigos na própria festa.

Anos depois, numa festa de Natal, os primos sugeriram jogar para passar o tempo.

Era o mesmo jogo traumatizante. Mas, agora, Juliana ela era uma adulta resolvida, que acreditava ter aprendido a nunca mais se dobrar diante de injustiças. 

Enquanto repassavam as regras, alguém mencionou uma que ela nunca havia notado.

— Mas sempre foi assim?

— Claro que sim! Você não se lembra que…

Nesse momento, todas as certezas sobre a injustiça sofrida no passado foram ao chão. 

Relutou um pouco, mas a verdade é que já não sabia o que pensar sobre aquele dia. E, pior: 

não sabia mais o que pensar sobre si mesma.

O que faria agora com uma história que já estava tão confortavelmente moldada à imagem de quem acreditava ser? 

A história da foto mudou. 

Já não havia ofensa a reparar. 

No lugar de menina injustiçada, apareceu uma garotinha teimosa demais, que havia brigado depois de uma derrota estúpida no dia do seu aniversário. 

E Juliana, que antes olhava para a foto com indignação, passou a olhá-la com certa reprovação.

Com o passar dos anos, viveu muitas outras perdas, nos jogos e fora deles. 

Brigou, persistiu, recuou quando foi preciso. 

Algumas vezes chamou sua teimosia de persistência, e sua briga de coragem. 

Em outras, viu apenas orgulho. 

E, nas situações em que recuar já não era mais possível, acabava se reencontrando na lembrança daquela garotinha emburrada no dia do aniversário.

Certo dia, remexendo caixas de fotografias, reencontrou sua foto algoz. 

Parou diante dela.

Mas, dessa vez, no seu olhar já não havia raiva e nem reprovação. Havia apenas ternura, como se acolhesse a menina que, seja lá pelo que estivesse sofrendo naquele instante do parabéns, simplesmente não havia conseguido sorrir. 

Foi então que Juliana percebeu que uma fotografia estática e congelada não guarda apenas uma história. 

Na verdade, ela carrega todas as histórias que ainda descobriremos nela ao longo da vida.

Na sala, o porta-retrato voltou ao seu lugar. Mas, dentro dele, já não estava apenas a garotinha injustiçada, nem apenas a orgulhosa. 

Estavam todas as Julianas que ela havia sido, e todas as que ainda seria.

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