Meias e meios

Sobre meios longos demais e meias furadas.
1 de setembro de 20254 min de leitura

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“E o perigo maior é a gente se acostumar com o que não deveria.”

Manuela sempre teve problemas com meias e meios. 

Um joanete no pé direito fazia com que sentisse dor sempre que usava meias por muito tempo. Batava sentir o incômodo do tecido apertando para se lembrar de que não gostava daquele pé por causa do joanete. 

Talvez por isso também ela nunca tenha gostado do frio. 

Quando o inverno chegava, vivia com um cobertor pela casa, enrolando os pés para não precisar das meias.

Os meios eram outro tipo de problema: ela gostava demais. 

Dizia que os começos e os fins são sempre uma bagunça, mas os meios são a calmaria da vida. 

Até o furacão tem um meio, o olho, em que os ventos enfraquecem e é possível até enxergar o céu azul. 

Manuela não gostava daquele frio na barriga dos começos, que avisa que existe alguma coisa desconhecida logo a frente. Também não gostava da ausência que os fins anunciam, nem daquela sensação de perda que aparece acompanhá-los.

Mas os meios…

Os meios ela fazia o possível para esticar o máximo que pudesse.

Seu sobrinho de cinco anos era um garotinho cheio de energia que adorava correr para todos os lados. 

Tinha olhos expressivos, sempre empolgados, e sua brincadeira preferida era o pega-pega. 

Mas foi ele quem acabou sendo pego num detalhe pela tia: 

estava sempre de meias.

Não havia chinelo, tênis ou sapatos capaz de convencer aquela criança a usá-los dentro de casa. Nem mesmo na casa da avó, onde corria livremente no quintal. 

Para ele, ficar de meias parecia uma insistência pessoal, uma marca registrada, talvez até a sua individualidade assegurada. 

Não havia quem o mudasse.

O quintal da avó, com seu piso de cimento, era palco favorito da passagem daquelas meias que não durariam uma semana sem ganhar ao menos um furo.

Um dia, observando o sobrinho correr de meias, Manuela logo percebeu a ondulação na lateral do pé direito da criança, bem perto do dedão.

– Ué, como ele pode gostar tanto das meias com um joanete no pé direito?

Ficou intrigada.

Preocupada até.

Pensou que talvez o menino sentisse tanto frio nos pés que preferisse suportar o incômodo da meia. 

Sem demora, foi logo perguntar para o menininho que, dando risada, respondeu:

– Não sinto frio nenhum. Nem nos pés e nem nos braços. 

Ela insistiu para que ele explicasse por que as meias eram tão importantes.

Ele olhou para ela, desconfiado, e escondeu os pés debaixo das almofadas. 

Depois confessou: usava as meias para esconder as unhas dos pés, que estavam sempre grandes. 

Foi aí que Manuela se lembrou que o menino tinha um verdadeiro horror à ideia de um cortador de unhas chegar perto dos seus dedos. 

Foi uma risada só!

A meia servia para ele como uma máscara para quem quer esconder algo de si. 

Enquanto ninguém visse as unhas grandes, ele se pouparia de ser convencido, o que sempre acabava no mesmo choro e berros de: 

– EU NÃO VOU DEIXAR CORTAR!

Tudo por causa de um único corte errado, muito tempo antes, quando a lâmina do cortador encostou na pele ao lado da unha do mindinho.

Manuela então gastou o seu melhor discurso tentando convencer o menino a ter coragem.

Explicou que não fazia muito sentido suportar o incômodo das meias apertando o joanete só pelo medo de que o cortador encostasse novamente na pele do dedinho. 

Em vão! 

A criança não abriria mão tão cedo da segurança das suas meias.

A mãe que lutasse para ter um estoque interminável de meias. 

Mas, para Manuela, o principal problema era pensar no prazer que o menino não conhecia, de tirar as meias, encostar os pés no chão frio e andar descalço num dia de calor.

Foi então que percebeu.

As meias do seu garotinho eram como os seus próprios meios esticados ao máximo: 

Tão aparentemente seguros, mas ao mesmo tempo tão enganosos. 

Meias e meios que ficam mais tempo do que deveriam, ainda que furados. 

Meias e meios que permanecem tanto tempo que quase fazem esquecer que existe outra sensação possível.

A de tirar aquilo que aperta

e tocar, finalmente,

o chão frio.