"No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo."
1 João 4:18
No minuto antes de Cláudia nascer, ela ficou apavorada.
Disseram a ela que, nesse mundo, havia seres muito maiores do que ela seria quando chegasse aqui. Já tinha ouvido vozes de dentro da barriga e, algumas vezes, essas vozes soavam bem assustadoras.
Eu não sei se vocês sabem, mas o passar do tempo para quem está dentro de uma barriga é diferente do que é para nós, que estamos fora dela.
Para nós, parece que tudo passa muito rápido: num dia, ouvimos o coração do novo bebê e, no outro, parece que ele já está forte o suficiente para chutar com os pés.
Não tem como essas transformações tão grandes acontecerem tão depressa assim.
É por isso que o tempo da barriga é diferente.
O que, para nós, parece um minuto, lá dentro parece uma hora.
Por isso, no minuto antes de Cláudia nascer, ainda faltaria uma hora no tempo da barriga.
De repente, um clarão incomodou seus olhos e ela viu um portal. Embora não soubesse para onde ia, sentia uma paz vindo dali.
Logo entendeu que era um convite a entrar.
Passou pelo portal e encontrou um lugar lindo, com muitas flores e um sol quentinho sobre uma bela casa onde estava escrito: Escola do Nascer.
Cláudia foi recebida na porta por alguém muito sorridente, que lhe disse:
– Seja muito bem-vinda, Cláudia! Essa é a Escola do Nascer. Aqui é o lugar aonde todos vêm no minuto antes de passar pelo portal da vida na Terra. Você está inscrita na aula 001, que já vai começar.
Ela viu uma porta e, ao abri-la, encontrou uma sala tão grande que nem conseguia enxergar o final.
O espaço estava cheio de bebês para nascer, entrando por várias portinhas espalhadas pelas paredes. A aula começou com as boas-vindas e a calma de um professor que nem parecia precisar liberar a todos dali em apenas um minuto do tempo da Terra.
Foi aí que Cláudia percebeu: naquele lugar o tempo passava ainda mais devagar.
Um minuto da Terra equivalia a um dia inteiro ali.
O professor iniciou a aula de Instintos Básicos de Sobrevivência.
Ensinou a chorar quando sentisse dor, fazer cara feia quando não gostasse de alguma coisa, fazer cara de assustada quando não se sentisse confortável, usar as pernas pra correr em caso de perigo e os braços para bater quando o perigo estivesse próximo demais.
Explicou também que, diante de uma ameaça, o corpo inteiro entraria em estado de alerta, ganhando energia e força para reagir. Naquele momento, os músculos poderiam parecer mais fortes do que o normal.
A esse estado ele chamou de coragem.
Depois, entrou o professor da aula 002: Instintos Básicos de Socialização.
Ali, Cláudia aprendeu que um sorriso nunca era apenas um sorriso e, dependendo de como se mexem o rosto e o corpo se mexessem, ele poderia significar coisas completamente diferentes.
Ela aprendeu a fazer a cara de charme, a de engraçada, a do “por favor”, a do “obrigada” e até aquela que usamos quando fingimos ter entendido o que alguém acabou de dizer.
A última aula daquele dia se chamava Manuais.
“Ufa, finalmente algo mais concreto”, pensou.
Disseram que uma mulher a receberia depois que ela passasse pelo portal e começaria a ensinar o conteúdo do livro Guia Prático para Viver.
Ela ensinaria Cláudia a comer, falar, andar e a levar sempre uma blusa ao sair de casa, mesmo que o dia parecesse quente com possibilidade de esfriar mais tarde.
Depois, outras pessoas apareceriam ao longo da vida para ensinar lições do meio e do final do livro.
Mas a primeira pessoa seria sempre aquela que mais a conheceria e, enquanto estivesse presente, lhe ofereceria um lugar onde pudesse ser recebida com amor.
– Amor? O que é isso exatamente? – Cláudia perguntou
O tempo havia esgotado.
Cláudia passou pelo portal quase empurrada e logo usou o primeiro instinto que aprendera:
Cláudia chorou porque não estava preparada para viver.
Foi então que ouviu alguém muito afoito chegando perto.
Logo depois, sentiu-se quentinha.
E passou as horas e os dias seguintes sendo alimentada, abraçada e ouvindo vozes tão gostosas que, pouco a pouco, tudo se acalmou dentro dela.
O medo de viver foi embora.
E Cláudia pensou:
– Ah… deve ser isso o amor!


