Um acidente no campo de batalha e o estudo de uma nova terapia

A história de Ambroise Paré e de como uma comparação inesperada ajudou a transformar a prática médica
4 de setembro de 20253 min de leitura

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Um dos primeiros experimentos comparativos de um novo tratamento aconteceu por acidente.

Essa história se passou em 1537, onde o médico cirurgião francês Ambroise Paré cuidava de soldados feridos em batalha. 

Os feridos eram muitos, a disposição do médico para cuidar era enorme, mas o seu óleo medicinal era pouco.

Naquele tempo, acreditava-se que os ferimentos causados por armas de fogo eram venenosos por causa da pólvora e, por isso, deveriam ser cauterizados com óleo quase fervente e impedir uma infecção. 

Mas não havia óleo para tratar tantos soldados.

Ambroise Paré precisava fazer alguma coisa por aqueles que ficariam sem o tratamento convencional. 

Então, recorreu a uma mistura de gema de ovos, óleo de rosas, e um resíduo de árvore, a terebintina, apenas para não deixar aqueles soldados com a sensação de que não estavam sendo cuidados, e aplicou nas feridas de boa parte dos soldados.

Ele descreve:

“Por fim, meu óleo acabou e fui obrigado a aplicar, em seu lugar, um digestivo feito de gemas de ovos, óleo de rosas e terebintina. Naquela noite não consegui dormir tranquilo, temendo que, por falta da cauterização, eu encontrasse mortos, envenenados, os feridos sobre os quais não havia usado o dito óleo."

A noite do médico foi terrível imaginando que os soldados que receberam a poção improvisada estariam sentindo uma dor insuportável.

Mas, ao amanhecer, veio a surpresa:

Os saldados que receberam a mistura estavam quase sem dores, conseguiram dormir, e em suas feridas já não havia tanto inchaço e inflamação. 

Já os que receberam o óleo convencional, estavam com muitas dores, inchados e não dormiram. 

Diante do que viu, Paré decidiu:

"Então, determinei nunca mais queimar tão cruelmente os pobres feridos por arcabuzes.”

Hoje sabemos que o óleo fervente destrói tecidos e piora as lesões, enquanto a nova poção manteve a ferida úmida, aliviou a dor e trouxe uma barreira antimicrobiana natural, já que combinou substâncias contendo proteínas, anti-inflamatórios naturais, antissépticos e cicatrizantes.

Quanto do resultado veio da mistura utilizada e quanto veio simplesmente de deixar de queimar as feridas?

O relato de Paré não permite responder.

Ele não tinha um ensaio clínico desenhado, grupos randomizados ou um protocolo de pesquisa.

Ele observou.

Comparou.

E, diante do resultado, mudou a própria prática.

Mais de duzentos anos depois, em 1747, James Lind faria uma comparação planejada entre diferentes tratamentos para o escorbuto — episódio que se tornaria um dos grandes marcos da história dos ensaios clínicos.

Ambroise Paré também deixou associada ao seu trabalho uma frase que atravessou os séculos:

"Eu o tratei, Deus o curou."

E quem poderá dizer que aquela “descoberta acidental” no campo de batalha foi mesmo apenas um acidente no universo?

Um coração disposto a cuidar, uma mente atenta ao que via e uma fé disposta fizeram com que o acaso não passasse despercebido.

E, no meio de uma guerra, uma falta de óleo abriu espaço para uma nova forma de cuidar e para mais uma página da história da pesquisa clínica.

Fonte:

Bhatt A. Evolution of clinical research: a history before and beyond james lind. Perspect Clin Res. 2010 Jan;1(1):6-10.  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3149409/pdf/PCR-1-6.pdf