O lobo que queria ser bom

“A atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade.” — Simone Weil
23 de agosto de 20264 min de leitura

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Numa certa aldeia no norte do mundo, escondida no meio de montanhas, vivia um lobo muito incomodado com os olhares e comentários que recebia dos moradores. 

Quando as crianças o viam passar, logo diziam:

— Olha o lobo mau.

E logo os pais respondiam:

— Fica perto de mim.

O lobo, que não tinha nenhum desejo de fazer mal a ninguém, voltava para casa triste e mal compreendido.

Ele não escolhera ser lobo. O resto parecia que a aldeia havia escolhido por ele.

Até que um dia decidiu que não deixaria mais os outros contarem sozinhos quem ele era.

— Todos vão ver quem eu realmente sou. Vão perceber o que posso fazer e vão gostar de mim.

Na manhã seguinte, apresentou-se como voluntário no grupo de emergência da aldeia, uma mistura de corpo de bombeiros, ambulância e equipe de resgate.

Era forte, rápido e tinha disposição de sobra.

Logo chegou a primeira ocorrência.

Uma raposa em trabalho de parto precisava ser levada às pressas para o hospital da cidade. O chefe chamou o lobo.

— A raposa está esperando no terceiro marco da estrada. O hospital fica logo depois do quinto. Pegue-a com cuidado e leve-a até lá.

O lobo disparou.
Enquanto corria, imaginava a notícia chegando à aldeia.

LOBO SALVA RAPOSA E FILHOTES.

Talvez as crianças corressem para abraçá-lo.

Talvez os pais finalmente dissessem:

— Olha o lobo bom!

Chegou ao terceiro marco, colocou a raposa nas costas e tornou a correr.

— Lobo… — tentou dizer ela.

Mas ele corria tão depressa que mal conseguia escutar.

Passou pelo quarto marco.
Depois pelo quinto.
E continuou.

A raposa tentou avisá-lo outra vez, mas os pensamentos do lobo estavam mais altos que a voz dela.

Quando finalmente percebeu que havia passado da entrada do hospital, precisou voltar correndo. A raposa chegou exausta, e os filhotes nasceram antes que todos estivessem preparados para recebê-los.

O chefe ficou furioso.
O lobo baixou as orelhas.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Alguns dias depois, chegou outra emergência.

Um coelho tinha ficado preso numa velha armadilha de galhos na floresta, e o chefe logo ordenou:

— Vá até lá, abra a armadilha com cuidado e tire o coelho.

O lobo correu.
Dessa vez daria certo.

Encontrou o coelho encolhido no meio dos galhos, tremendo e cheio de arranhões.

O lobo olhou para a armadilha.
Tirar todos aqueles galhos levaria tempo.
Olhou para a estrada.
O hospital ficava longe.
E pensou que seria muito mais eficiente carregar tudo de uma vez.
Agarrou a armadilha com o coelho dentro e saiu correndo.

— Está apertando… — gemeu o coelho.

Mas o lobo já imaginava o momento em que atravessaria a porta do hospital carregando o animal nos braços.

Apertou a caixa com mais força para não deixá-la cair.

Quando chegou, o coelho estava ainda mais machucado do que antes.

O lobo baixou as orelhas.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Naquela mesma noite, uma casa pegou fogo no meio da floresta.
Antes mesmo de o chefe terminar de explicar a ocorrência, o lobo já estava correndo.

Chegou muito antes dos outros.
As chamas subiam pelo telhado.
Ele olhou ao redor.
Nenhum companheiro.
Nenhuma mangueira.
Nenhuma água.
Então encheu os pulmões e começou a soprar com toda a força.
Só não percebeu de que lado vinha o vento.

As chamas alcançaram os arbustos.
Dos arbustos passaram para uma árvore.
Da árvore, quase chegaram à floresta inteira.
Foram necessárias quatro horas para controlar o incêndio.

Dessa vez, o chefe nem precisou dizer nada.
O lobo baixou as orelhas sozinho.

Mas ele só estava tentando ajudar.

Na manhã seguinte, não apareceu para trabalhar.
O chefe foi procurá-lo.
Encontrou o lobo deitado em casa, com o focinho entre as patas.

— Eu não entendo. Tudo o que eu queria era fazer o bem. Eu me esforcei o máximo que pude. Corri mais rápido que todo mundo. Dei tudo de mim. E só consegui piorar as coisas.

O chefe sentou-se ao lado dele.

— Talvez esse tenha sido o problema.

O lobo levantou os olhos.

— Você queria tanto que todos percebessem quem você realmente era que, nas três vezes, também não percebeu quem estava diante de você.

O lobo ficou quieto.

— Seus pensamentos estavam tão altos que você não ouviu a raposa, não percebeu o coelho apertado e nem sentiu para onde o vento estava soprando. Você sabe como é ruim não ser visto, lobo.

O lobo olhou para as próprias patas.
O chefe se levantou.
Antes de sair, disse:

— Quem está cheio só de si não serve para servir.