Numa certa aldeia no norte do mundo, escondida no meio de montanhas, vivia um lobo muito incomodado com os olhares e comentários que recebia dos moradores.
Quando as crianças o viam passar, logo diziam:
— Olha o lobo mau.
E logo os pais respondiam:
— Fica perto de mim.
O lobo, que não tinha nenhum desejo de fazer mal a ninguém, voltava para casa triste e mal compreendido.
Ele não escolhera ser lobo. O resto parecia que a aldeia havia escolhido por ele.
Até que um dia decidiu que não deixaria mais os outros contarem sozinhos quem ele era.
— Todos vão ver quem eu realmente sou. Vão perceber o que posso fazer e vão gostar de mim.
Na manhã seguinte, apresentou-se como voluntário no grupo de emergência da aldeia, uma mistura de corpo de bombeiros, ambulância e equipe de resgate.
Era forte, rápido e tinha disposição de sobra.
Logo chegou a primeira ocorrência.
Uma raposa em trabalho de parto precisava ser levada às pressas para o hospital da cidade. O chefe chamou o lobo.
— A raposa está esperando no terceiro marco da estrada. O hospital fica logo depois do quinto. Pegue-a com cuidado e leve-a até lá.
O lobo disparou.
Enquanto corria, imaginava a notícia chegando à aldeia.
LOBO SALVA RAPOSA E FILHOTES.
Talvez as crianças corressem para abraçá-lo.
Talvez os pais finalmente dissessem:
— Olha o lobo bom!
Chegou ao terceiro marco, colocou a raposa nas costas e tornou a correr.
— Lobo… — tentou dizer ela.
Mas ele corria tão depressa que mal conseguia escutar.
Passou pelo quarto marco.
Depois pelo quinto.
E continuou.
A raposa tentou avisá-lo outra vez, mas os pensamentos do lobo estavam mais altos que a voz dela.
Quando finalmente percebeu que havia passado da entrada do hospital, precisou voltar correndo. A raposa chegou exausta, e os filhotes nasceram antes que todos estivessem preparados para recebê-los.
O chefe ficou furioso.
O lobo baixou as orelhas.
Mas ele só estava tentando ajudar.
Alguns dias depois, chegou outra emergência.
Um coelho tinha ficado preso numa velha armadilha de galhos na floresta, e o chefe logo ordenou:
— Vá até lá, abra a armadilha com cuidado e tire o coelho.
O lobo correu.
Dessa vez daria certo.
Encontrou o coelho encolhido no meio dos galhos, tremendo e cheio de arranhões.
O lobo olhou para a armadilha.
Tirar todos aqueles galhos levaria tempo.
Olhou para a estrada.
O hospital ficava longe.
E pensou que seria muito mais eficiente carregar tudo de uma vez.
Agarrou a armadilha com o coelho dentro e saiu correndo.
— Está apertando… — gemeu o coelho.
Mas o lobo já imaginava o momento em que atravessaria a porta do hospital carregando o animal nos braços.
Apertou a caixa com mais força para não deixá-la cair.
Quando chegou, o coelho estava ainda mais machucado do que antes.
O lobo baixou as orelhas.
Mas ele só estava tentando ajudar.
Naquela mesma noite, uma casa pegou fogo no meio da floresta.
Antes mesmo de o chefe terminar de explicar a ocorrência, o lobo já estava correndo.
Chegou muito antes dos outros.
As chamas subiam pelo telhado.
Ele olhou ao redor.
Nenhum companheiro.
Nenhuma mangueira.
Nenhuma água.
Então encheu os pulmões e começou a soprar com toda a força.
Só não percebeu de que lado vinha o vento.
As chamas alcançaram os arbustos.
Dos arbustos passaram para uma árvore.
Da árvore, quase chegaram à floresta inteira.
Foram necessárias quatro horas para controlar o incêndio.
Dessa vez, o chefe nem precisou dizer nada.
O lobo baixou as orelhas sozinho.
Mas ele só estava tentando ajudar.
Na manhã seguinte, não apareceu para trabalhar.
O chefe foi procurá-lo.
Encontrou o lobo deitado em casa, com o focinho entre as patas.
— Eu não entendo. Tudo o que eu queria era fazer o bem. Eu me esforcei o máximo que pude. Corri mais rápido que todo mundo. Dei tudo de mim. E só consegui piorar as coisas.
O chefe sentou-se ao lado dele.
— Talvez esse tenha sido o problema.
O lobo levantou os olhos.
— Você queria tanto que todos percebessem quem você realmente era que, nas três vezes, também não percebeu quem estava diante de você.
O lobo ficou quieto.
— Seus pensamentos estavam tão altos que você não ouviu a raposa, não percebeu o coelho apertado e nem sentiu para onde o vento estava soprando. Você sabe como é ruim não ser visto, lobo.
O lobo olhou para as próprias patas.
O chefe se levantou.
Antes de sair, disse:
— Quem está cheio só de si não serve para servir.


