Senhor, quando o medo chegou eu achei que não experimentaria mais da tua paz.
Os dias foram passando, e o medo trouxe a angústia.
Logo a tristeza me cercou, e eu me vi como se estivesse no meio da história de Elias,
dividindo com ele um espaço numa caverna.
Fiz meu canto no escuro, sem saber se fugia dos outros ou de mim.
Mas de ti não posso me esconder.
Até na minha solidão tu estás.
Divido contigo os meus pensamentos.
Lembro que o Senhor socorre, mas, ainda assim, tudo o que penso me dá medo.
A caverna parece segura.
Lá fora, preciso ser forte. Aqui, posso ser só o que consigo.
Ao menos hoje, só o Senhor me vê!
Passa um dia.
Passa outro.
E parece que já passaram muitos.
Será que estás planejando algum socorro?
Fico ouvindo esse silêncio barulhento dentro de mim o tempo todo.
O Senhor também escuta?
Há alguma coisa que possa me explicar?
Tu não me explicas, mas me alimentas.
Não falta água, não falta pão, não falta presença.
E os dias passam.
Até que, em algum momento, percebo que estou sorrindo de novo.
Quando foi que entrou a luz?
Olho ao meu redor e quase nada mudou, mas vi que eu me mudei.
O teu amor me encontrou.
"No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor."
1 João 4:18
E, dentro de mim, um sussurro ecoa:
Meu amor não começa em quem você consegue ser.
Começa em quem EU SOU.
Então compreendo:
é no teu amor que me descubro sem medo, porque é só nele que não preciso sustentar uma versão do que eu deveria ser.
Tu és o EU SOU.
E tudo o que sou, está em ti.
Volto a morar no teu lugar.
E no teu amor, descanso sem medo.
Amém!
A imagem da caverna vem de 1 Reis 19, quando o profeta Elias, depois de viver grandes experiências com Deus, foge ameaçado, cansado e com medo.
Antes de lhe dar qualquer explicação, Deus cuida dele.
Elias dorme. Recebe pão e água. É alimentado para continuar o caminho. Só depois chega ao monte Horebe e entra numa caverna, onde se sente sozinho e perseguido.
Ali, Deus pergunta:
"Que fazes aqui, Elias?"
1 Reis 19:9
Depois passam um vento muito forte, um terremoto e o fogo. Mas o Senhor não estava neles.
Então vem um sussurro suave.
Deus não encontra Elias apenas no extraordinário. Ele também se revela no silêncio, no cuidado e numa voz que não precisa competir com o barulho.
A história de Elias mostra que momentos de medo, cansaço e recolhimento não significam ausência de Deus.
Às vezes, antes de nos devolver direção, Ele nos alimenta.
Antes de nos pedir força, Ele nos sustenta.
Antes de nos tirar da caverna, Ele nos encontra dentro dela.
Por isso, a caverna não precisa ser vista como um lugar de fracasso.
Ela pode se tornar o lugar onde descobrimos que aquilo que nos mantém vivos não nasce da nossa própria força.
O alimento vem dele.
A presença vem dele.
O consolo vem dele.
O próximo passo também.
Ele é o EU SOU.
E é nele que encontramos descanso para voltar a ser.


