Contos Fantásticos – Conto com Graça https://contocomgraca.com.br Um lugar de contos, crônicas, ciência e fé Tue, 04 Nov 2025 03:25:55 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://contocomgraca.com.br/wp-content/uploads/2025/07/logo-sem-fundo-512-150x150.png Contos Fantásticos – Conto com Graça https://contocomgraca.com.br 32 32 O cacto e o girassol https://contocomgraca.com.br/o-cacto-e-o-girassol/ https://contocomgraca.com.br/o-cacto-e-o-girassol/#comments Tue, 04 Nov 2025 02:30:53 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1748

Vizinhos de vaso, alguém achou por bem colocar um girassol ao lado de um cacto no canto da sala.

O girassol, jovem e recém-chegado, estava todo animado para fazer amigos, mas foi ficar justo ao lado de um cacto rabugento. Embora muito diferentes, os dois precisavam dividir o mesmo sol da única janela ensolarada da casa.

Todos os dias, o cacto via o girassol se inclinando para o leste pela manhã, seguindo o sol até o oeste ao longo do dia, e retornando ao leste durante a noite para começar tudo de novo no dia seguinte.

Já o girassol, ao passar sua fronte pelo cacto, o via sempre imóvel, sem parecer se importar com o sol que o iluminava.

Um parecia imaturo e desesperado pela luz aos olhos do outro, que, por sua vez, parecia indiferente e acomodado aos olhos do um.

Na sua dança de todos os dias, o girassol entregava um louvor ao sol que tanto o provia. Ele se esticava porque sentia todo um lado do caule o empurrando em direção à luz. Era o que sabia fazer e fazia com alegria.

Numa certa semana nublada, o girassol não dançou.

Não vinha luz solar de nenhum canto da sala, e ele ficou confuso e deprimido. Foi parar virado para o cacto, que, como sempre, não queria papo.

Foi aí que o girassol percebeu que o cacto, na verdade, não era imóvel e tampouco indiferente. Enquanto ele se via triste sem a luz direta do sol, o cacto nunca parecera tão confortável. Estava mais “cheinho” por não perder tanta água e parecia até sorrir, como quem estivesse descansando.

O girassol se atentou que os poros do cacto fechavam de dia e abriam de noite, e não aguentou evitar provocar o vizinho que antes lhe parecia tão indiferente:

– Ora, ora… vejo que eu não sou o único que me mexo por aqui! Mas ainda sou visto como um desesperado – disse o girassol.

– E vejo que eu não sou o único rabugento aqui também – respondeu o cacto. – Basta uma semana sem sol e você já tem esse olhar de abandonado, vindo me provocar no meu dia feliz.

Passadas as primeiras provocações, o girassol entendeu que o cacto sempre parecia de cara fechada porque vivia no limite entre o sol que era necessário e o sol que o machucava. Dia após dia, o cacto suportava a ferida do calor e fechava seus poros. Seus muitos espinhos eram sua proteção, mas por baixo deles havia caules fortes e suculentos que, mesmo sem folhas, faziam fotossíntese.

Nessa troca nublada, o cacto viu seu novo amigo deprimido, mostrando sua dor profunda e o quanto sentia falta de dançar ao encontro da luz. O que ele achava antes que era desespero do girassol, agora via como uma das definições de amor, porque só no amor há tanta coragem para se entregar totalmente. Mesmo sabendo que um vento forte poderia machucar suas finas hastes, o girassol nunca deixou de se esticar em direção ao sol.

Os vizinhos de vaso agora sempre esperavam os fins de tarde para conversar. O girassol contava o que via enquanto girava, e a alegria que sentia quando, no ápice, ficava de frente para o sol. O cacto compartilhava  suas estratégias inteligentes para reter água, mesmo nos dias muito quentes.

Um passou a ser admirado pela devoção e alegria aos olhos do outro, que, por sua vez, passou a ser admirado pela inteligência e resistência aos olhos do um.

Depois de um tempo, começou a ficar difícil para o girassol girar. A maturidade o fazia permanecer fixo, virado para o leste. A princípio, ficou triste por perder sua juventude e parar de dançar, mas logo ele apreciou a nova fase, pois tinha aprendido o valor de permanecer firme, mesmo nas mudanças.

Os amigos seguiam conversando e um belo dia experimentaram um pequeno milagre: nasceu uma flor no vaso do cacto. Agora, ele também saberia o que é ser vibrante e perfumado e abraçou com alegria e intensidade sua delicadeza na flor que duraria apenas alguns dias.

Quando há compreensão e respeito, os cactos florescem e os girassóis resistem.

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Cordeiro em pele de Lobo https://contocomgraca.com.br/cordeiro-em-pele-de-lobo/ https://contocomgraca.com.br/cordeiro-em-pele-de-lobo/#respond Fri, 12 Sep 2025 02:00:42 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=100

Ser cristão significa perdoar o que é imperdoável, porque Deus perdoou o que é imperdoável em você.”

Assustadoramente encantador, o imponente lobo era o vilão favorito das fábulas mais lembradas pelas crianças. 

Todo orgulhoso por acompanhar as infâncias e apresentar o medo aos pequeninos, ele sabia que seria uma presença marcante nos livros das fábulas quando as crianças chegassem nas páginas do meio da história. 

Quando ele aparecia, o clímax era perfeito!

Com instinto de caçador, o lobo farejava e mirava na inocência dos personagens. 

Ele acertava para além dos livros, naqueles que ainda acreditavam que a vida seria feita de brincadeiras e doces, e a parte chata era parar para tomar banho.

O lobo mau talvez nem soubesse por que era mal, mas sabia que ser sagaz era tão natural quanto o ronco na sua barriga.

Um belo dia, ele se viu diferente nas páginas do meio da história e foi atingido no clímax por um encontro que acertou até o seu estômago.

Eis que veio um cordeiro, sem nenhuma resistência ou medo, mas manso e humilde, disposto a se entregar. 

Alguém precisaria satisfazer esse lobo para que ele deixasse em paz os pequeninos. 

Foi aí que o lobo se viu e se percebeu um animal escravo do seu estômago, como aquele cordeiro nunca foi. 

Ao invés de imponente, ele agora se via mísero e sujo. 

Daquele encontro no meio do caminho, não conseguiu desviar do que aconteceu a si mesmo e, pela primeira vez, desejou ser livre, como era aquele cordeiro. 

Era para ter sido só mais uma história de alguém com um encontro que cessaria momentaneamente a sua fome, mas, naquele templo indispensável de sua própria história, seu estômago parou de roncar para sempre. 

O lobo mau, não precisaria mais saber porque era mal. Agora, ele seria o mais manso dos cordeiros em pele de lobo.

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A mulher que foi encontrada https://contocomgraca.com.br/a-mulher-que-foi-encontrada/ https://contocomgraca.com.br/a-mulher-que-foi-encontrada/#comments Wed, 10 Sep 2025 01:00:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=977

Maria tinha visto morrer o seu melhor amigo. 

Mesmo assim, permanecia sentada sobre uma pedra, bem ao lado do túmulo, esperando algo de milagre que ela nem sabia o que seria. 

No buraco entre a tristeza do luto e a esperança da alegria de vê-lo viver de novo, haviam incontáveis pensamentos. 

“Talvez aquele pesadelo fosse só mais um milagre e ele não havia morrido de verdade.” 

“Depois de tantos milagres feitos a tanta gente, ele poderia estar fazer um para ele mesmo?”

 Ela lembrava de quando ele ressuscitou a seu amigo Lázaro: ele foi até a porta do túmulo, pediu que removessem a pedra e o chamou para fora. 

“Será que alguém precisa o chamar agora também?”

Mas, a pergunta que mais martelava em sua cabeça era se ele saberia que ela estava ali, à espera do seu melhor amigo. 

Tudo isso ela pensava. Chorava e pensava!

 

Três dias da morte dele tinham se passado. 

Ela estava cansada porque o havia seguido até o fim, em todo o caminho do sofrimento, e viu toda a dor, toda a angústia, todo o sangue. 

Ela não se permitiu afastar dele, não conseguiria fazer isso depois de experimentar da água que jorrou dele, até o final. 

Agora, queria ficar sozinha. Precisava proteger e nutrir sua esperança sem que ela fosse contaminada no medo dos seus amigos. Precisava revisitar todas as suas memórias, repassar cada palavra dita nos últimos meses na esperança de encontrar algo que ainda não tivesse compreendido. 

Ele havia falado sobre voltar… mas será que ela tinha entendido direito? 

Era tanta coisa extraordinária no meio do ordinário. Tantas parábolas no meio da história real que ele estava construindo…

 

De repente, uma voz a chama pelo seu nome. Podia ser qualquer um, afinal era conhecida por tantos. Mas ela sabia bem que, por ser mulher, o mal que se faz uma vez ficaria gravado na memória de quem nada tem a ver com as suas histórias. 

Eles não esqueceriam! 

A nomeavam como queriam e achavam que sabiam tudo sobre ela, mas eles não tinham nome. 

Mas, ela conhecia a entonação da voz que mais amava. Sabia cada frequência da voz que tocava imediatamente sua alma. Era a mesma voz que a libertara, logo que se conheceram, dos sete demônios que a aprisionavam. 

Desde então, aquela voz lhe dava o alívio diário para a sua alma cansada e sobrecarregada, incapaz de carregar sozinha todo o peso acumulado. 

Como esquecer e viver sem isso agora? 

Ela tinha encontrado uma paz e uma vida que nunca antes havia experimentado. Seria eternamente grata e devota ao dono daquela voz. Andaria com ele sem medo a despeito do que pudesse acontecer a ela. Porque a gratidão e a coragem de seguir alguém é mesmo proporcional ao quanto você já descobriu que não seria nada de bom se não fosse por esse “alguém”. Ele mesmo tinha dito uma vez: quem muito é perdoado, muito ama!

 

Então, no auge da sua tristeza, ela ouve o seu nome e o reconhece imediatamente:

Maria!

Era um nome tão comum dito de uma forma tão pessoal e tão íntima.

Não foi para um grupo de pessoas. Não foi em uma sala onde ela estava sentada numa cadeira o assistindo falar da segunda fileira. Tampouco foi um recado dado por outro alguém.

Ele estava ao lado dela, só com ela, e falava o nome dela. 

Transbordando de alegria, ela respondeu:

Mestre!

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A assistente de alguém fantástico https://contocomgraca.com.br/a-assistente-de-alguem-fantastico/ https://contocomgraca.com.br/a-assistente-de-alguem-fantastico/#respond Sat, 06 Sep 2025 02:08:54 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=682

“Não é o fim que importa, mas o caminho, e o que nele se transforma.”

– Respeitável público… sejam muito bem-vindos ao nosso incrível, super, mega, maravilhoso show! Uma salva de palmas para a nossa assistente:  Laravilhosa!

O público gritou e aplaudiu a assistente de pé. 

Ué… mas ela é a assistente de alguém. Não deveriam aplaudir apenas O alguém? Acontece que Lara era uma assistente de alguém tão fantástico e amado, que para ela também havia muita da admiração do público.

No circo, tudo é grandioso. E deve ser assim. 

Ele mexe com algo precioso nas pessoas: a imaginação. E é ela que nos dá a sensação de que tudo é possível, ainda que vá diminuindo à medida que crescemos.  

Entre os personagens do circo, estava Donald. Mais do que qualquer outro circense, ele fazia o público libertar a mente para imaginar. Contava histórias cheias fantasias, mas os seus olhos brilhavam como ele tivesse vivido mesmo essas histórias.

Um dia, falou sobre um pequeno avião que, ao se perder da rota, entrou num buraco no céu. 

Já viu isso? Um buraco no céu? 

Ficava entre a nuvem 3330 e a nuvem 3340. 

De repente, Donald surgia aos olhos do público num avião suspenso por cordas, atravessando um grande portão secreto, como um portal. De repente, o cenário mudava, e todos sentiam o seu medo diante do desconhecido, mas também o seu encantamento ao encontrar uma terra de formigas gigantes e elefantes pequeninos. Parecia que tudo estava ao contrário e o público alternava entre gargalhadas e corações pulsando ao imaginar o que de novo apareceria depois que se acomodassem as emoções.

Donald adorava mostrar que, de repente, tudo pode mudar, seja por um portal, um sonho, uma rua errada, uma pessoa nova que se conhece, ou uma simples visita ao circo. Nessas mudanças, Donald brincava com a ordem das coisas: 

O que o público normalmente esperaria que viesse depois, Donald trazia antes; o que achavam que viria grande, ele trazia pequeno, e o que viria pequeno, ele trazia grande. 

Nos bastidores, ele dizia que:

“Na vida as coisas não vem como pensamos. Mas, se olharmos bem, sempre carregam um quê de fantástico, capaz de nos desafiar e nos maravilhar ao mesmo tempo.”

Lara era a assistente única e favorita de Donald. Ela não era menos favorita por ser única, porque ele dizia que o valor de alguém não se mede com comparações. Ela enxergava as histórias dele antes mesmo de ele dizer o que faria e, junto dele, dava vida a cada uma. Quase sempre aparecia no show, e foi o próprio público quem, pela primeira vez, a chamou de Laravilhosa.

Lara era como a sombra de Donald. 

Ela tinha o olhar de quem admira, os ouvidos de quem é aprendiz, os braços de quem é disposto, e as pernas de quem está sempre disponível. 

Juntos, eles eram uma dupla perfeita de mestre e aprendiz.

Mas, um dia, Donald não encontrou forças para se apresentar. Ele já estava ficando velhinho, e sentiu que não conseguiria fazer a acrobacia mais esperada daquele show: se pendurar numa corda, dar algumas cambalhotas e se lançar num aro preto, como se mergulhasse num buraco negro encontrado no meio de um campo de rosas.

Em trinta anos no seu papel, era a primeira vez que ele não se apresentaria. 

Lara o acompanhava havia 10 anos e já o vira encontrar forças por diversas vezes, no meio de uma gripe, de uma dor de barriga, ou com a coluna “puxando”, como ele dizia. Dessa vez, era diferente. Lara sabia o que precisava fazer: levar o show do seu mestre adiante. 

E assim fez.

Seguiu o plano exatamente como haviam ensaiado. Para o público, quase nada mudou. Já havia carinho pela Laravilhosa, e ninguém resistiu a ser conduzido por ela ao mundo das fantasias.

Para Lara, porém, tudo mudou! 

Sem formatura ou ritual de passagem, ela deixou de ser aprendiz para se tornar mestre de um novo alguém que, com o tempo, o público também adicionaria um “vilhoso” no nome. 

Naquela noite em que Lara ocupou o lugar de Donald pela primeira vez, ela entendeu o que o movia para criar e ser tão fantástico:

"Quando tudo muda diante dos seus olhos sem aviso prévio, encontrar um quê de fantasia na mudança é o único caminho possível para seguir com alegria e esperança em qualquer coisa que se faça."

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A Escola do Nascer https://contocomgraca.com.br/a-escola-do-nascer/ https://contocomgraca.com.br/a-escola-do-nascer/#comments Wed, 03 Sep 2025 21:46:36 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=701

"No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora todo o medo."

No minuto antes de Cláudia nascer, ela ficou apavorada!

Disseram a ela que, nesse mundo, havia seres bem maiores do que ela seria quando chegasse aqui. Já tinha ouvido vozes de dentro da barriga e, algumas vezes, essas vozes soavam bem assustadoras. 

Eu não sei se vocês sabem, mas o passar do tempo para quem está dentro de uma barriga é diferente do que é para nós, que estamos fora dela. Para nós, parece que tudo passa muito rápido: num dia, ouvimos o coração do novo bebê, e parece que no outro ele já está com força suficiente para chutar com os pés. Não tem como essas transformações tão grandes acontecerem tão rápido assim. É por isso que o tempo da barriga é diferente. O que, para nós, parece 1 minuto, lá dentro parece 1h. Por isso, no minuto antes de Cláudia nascer, ainda faltaria 1h no tempo da barriga. 

De repente, um clarão incomodou seus olhos e ela viu um portal que transmitia dele uma paz muito grande. Ela logo entendeu que era um convite a entrar. Passou por ele e encontrou um lugar lindo, com muitas flores e um sol quentinho sobre uma bela casa onde estava escrito: “Escola do Nascer”. 

Cláudia foi recebida na porta por alguém muito sorridente, que lhe disse:

– Seja muito bem-vinda, Cláudia! Essa é a Escola do Nascer. Aqui é o lugar aonde todos vêm no minuto antes de passar pelo portal da vida na Terra. Você está inscrita na aula 001, que já vai começar.

Ela viu uma porta e, ao abri-la, encontrou uma sala tão grande que nem conseguia ver o final. O espaço estava cheio de bebês para nascer que entravam por várias outras portinhas espalhadas pelas paredes. A aula começou com as boas-vindas e a calma de um professor que nem parecia precisar liberar a todos em apenas 1 min do tempo da Terra. Foi aí que Cláudia percebeu: naquele lugar o tempo passava ainda mais devagar. Um minuto da Terra equivalia a um dia inteiro ali.

O professor iniciou a aula de “instintos básicos de sobrevivência“, explicando a chorar quando sentir dor, fazer cara feia quando não gostar de algo, fazer cara de assustado quando não estiver confortável, usar as pernas pra correr em perigo, e usar os braços para bater quando o perigo estiver próximo demais. Disse que, ao sentir perigo, o corpo todo entra em estado de alerta, ganhando energia e força para reagir. Nesse momento, os músculos ficam mais fortes do que o normal e esse seria o nosso estado chamado coragem.

Depois, entrou o professor da aula 002, “instintos básicos de socialização“. Ali, Cláudia aprendeu que um sorriso não é apenas um sorriso e, dependendo de como se mexem o rosto e o corpo, ele pode significar coisas bem diferentes. Ela aprendeu a fazer a cara de charme, a de engraçada, a do “por favor”, a do “obrigada” e até aquela que usamos quando fingimos entender o que disseram.

A última aula daquele dia foi “manuais“. “Ufa, finalmente vão me dar um material pra levar”, pensou. Não era possível aprender tudo o que precisava para viver os 86 anos que lhe disseram que teria na Terra em apenas 1 dia. Primeiro, explicaram que dentro dela haveria sempre um guia prático para agir, e esse manual se chamava “consciência“. Para acessá-lo, ela teria de aprender a escutá-lo, e essa capacidade diminuiria com altos níveis de estresse. Era importante controlar isso. Depois, contaram que, ao longo da vida, ela conheceria outro manual, a . Ele a ajudaria a enfrentar os momentos mais difíceis, superar desafios e encontrar descanso quando nada mais funcionasse. 

Por fim, o último manual viria de um ser humano. “Ufa, finalmente algo mais concreto”, pensou novamente. Disseram que uma mulher a receberia depois que passasse no portal e lhe ensinaria o conteúdo do livro “Guia prático para viver“. Ela ensinaria Cláudia a comer, falar, andar, levar sempre uma blusa ao sair de casa, mesmo que o dia parecesse quente, a convencendo-a com uma previsão do tempo diária. 

Depois, outras pessoas apareceriam ao longo da vida para ensinar outras lições do meio e do final do livro. Mas a primeira pessoa seria sempre a que mais a conheceria e, enquanto estivesse presente, lhe ofereceria um lugar para ser recebida com amor.

– Amor? – Cláudia perguntou. – O que é isso exatamente?

Foi então que as portas da sala se abriram e todos precisaram passar imediatamente para nascer. 

Sem entender o que era o amor, Cláudia saiu para o portal.

– Não, espera! Eu não aprendi tudo. Alguém falou sobre amor e eu acho que vou precisar saber isso. Me deem mais um minuto.

Ela passou pelo portal quase empurrada e logo usou o primeiro instinto que aprendera: 

Cláudia chorou porque não estava preparada para viver.

Foi então que Cláudia ouviu alguém muito afoito chegando perto. 

Logo depois, ela se sentiu quentinha e passou as horas e dias seguintes sendo alimentada, abraçada e ouvindo vozes tão gostosas que tudo se acalmou dentro dela.

O medo de viver foi embora, e ela pensou: – Ah… deve ser isso o amor!

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Meias e meios https://contocomgraca.com.br/meias-e-meios/ https://contocomgraca.com.br/meias-e-meios/#comments Tue, 02 Sep 2025 00:22:44 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=725

“E o perigo maior é a gente se acostumar com o que não deveria.”

Manuela sempre teve problemas com meias e meios. 

Um joanete no seu pé direito fazia com que sentisse dor sempre que usava meias por muito tempo. Só de sentir o incômodo da meia, ela já se lembrava que não gostava do seu pé por causa do joanete. Talvez por isso também ela nunca gostou do frio. Quando o inverno chegava, ela vivia com um cobertor pela casa para enrolar os pés e não precisar das meias.

Os meios eram outro tipo de problema: ela gostava demais. 

Dizia que os começos e os fins são sempre uma bagunça, mas os meios são a calmaria da vida. O meio de um furacão, por exemplo, é calmo comparado ao começo ou ao final dele. É no centro do furacão que os ventos são mais fracos e é possível até ver o céu azulado. 

Ela não gostava daquele frio na barriga nos começos que sinalizam o medo do desconhecido, nem do medo da ausência e da sensação de perda que os fins sempre dão. Mas os meios, esses, ela sempre fazia o possível para estender o máximo que pudesse. 

Seu sobrinho de 5 anos era um garotinho cheio de energia que adorava correr para todo lado. Aquele menininho, de olhos expressivos e empolgados, tinha como brincadeira favorita o pega-pega. Mas ele que foi pego num detalhe pela sua tia: ele sempre estava de meias. Não havia chinelos, tênis ou sapatos que fizessem aquela criança usá-los em casa, nem na casa da avó, onde corria livre no quintal. Para ele, estar de meias era uma insistência pessoal, sua marca na família, sua individualidade assegurada. Não havia quem o mudasse e seu semblante irradiava alegria quando ele sentia que finalmente estava livre para ficar de meias. O quintal da avó, com piso de cimento, era palco favorito de passagem para aquelas meias que não durariam uma semana sem ganhar ao menos um furo, às vezes dois, de uma só vez.

Manuela, ao reparar nas meias do sobrinho, se lembrou que o joanete é uma característica da família da sua mãe e logo percebeu a ondulação na lateral do pé direito da criança, perto do dedão.

– Ué, como ele pode gostar tanto das meias com um joanete no pé direito?

Ela ficou intrigada, preocupada até, pensando que a criança pudesse sentir tanto frio nos pés que justificasse o incômodo das meias. Sem demora, foi logo perguntar para o menininho que, dando risada, respondeu:

– Não sinto frio nenhum. Nem nos pés e nem nos braços. 

Ela insistiu para que ele explicasse por que as meias eram tão importantes e ele, escondendo os pés debaixo de almofadas, disse que usava as meias para esconder as unhas dos dedos do pé, que estavam sempre grandes. Logo ela lembrou que ele tinha horror à ideia de chegar perto de um cortador de unhas. 

Foi uma risada só! 

A meia servia a ele como uma máscara serve à quem quer esconder sua própria identidade. Assim, ninguém veria suas unhas grandes e ele se poupava de ser convencido ao corte de unha, que sempre acabava no mesmo choro e berros de “eu não vou deixar cortar”, fruto de um único corte errado, em que a lâmina do cortador encostou na pele ao lado da unha do mindinho do pé.

Manuela então gastou todo o seu discurso para incentivar o menino a ter coragem, porque não fazia sentido ele aguentar o incômodo das meias apertando um joanete pelo medo do cortador encostar na pele do seu dedinho. 

Em vão! 

A criança não abriria mão da segurança das suas meias tão cedo para adiar os cortes de unhas.  

A mãe que lutasse para ter um estoque interminável de meias. Mas o principal problema para Manuela era imaginar que ele não sentiria o prazer que ela sentia ao tirar as meias, encostar os pés no chão frio e andar descalço num dia de calor.

Manuela percebeu que as meias do seu garotinho eram como os seus próprios meios esticados ao máximo: 

Tão aparentemente seguros, mas ao mesmo tempo tão enganosos. 

Meias e meios que ficam mais tempo do que devem, ainda que furados. 

Que se remendam num dia para logo serem furados de novo no mesmo piso de cimento de sempre. 

Que se vestem de continuidade para esconder o medo do dedinho ter a lasquinha da pele cortada, como aconteceu num único dia.

Meias e meios que encontram força no medo para se manterem no mesmo pé, mesmo ao custo da dor. 

Meias e meios que ficam, e de tão obstinados, se tornam barreira para o prazer de tocar os pés no piso frio, onde só o frescor conseguiria dar algum alívio do calor e da dor.

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A garota da perna em X https://contocomgraca.com.br/a-garota-da-perna-em-x/ https://contocomgraca.com.br/a-garota-da-perna-em-x/#respond Wed, 27 Aug 2025 19:50:46 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=777

"No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas."

Beatriz era uma dançarina com joelhos tortos e que pareciam formam um X porque apontavam para dentro das coxas. 

O que poderia parecer um problema para qualquer pessoa, não é para os dançarinos. Eles sabem que ter pernas em X torna mais belo alguns movimentos de dança, como elevar uma perna no atiti, perfeitamente marcado por Beatriz.

Ela tinha olhos grandes que eram quase janelas para os seus pensamentos e denunciavam qualquer emoção. Mas na dança, se expressar demais nunca seria problema e a denúncia era mais que bem-vinda.

Beatriz amava dançar! 

Dançar era encontrar a si mesma. Era entrega ao outro e conquistar a si ao mesmo tempo. 

Sentia que a música a convidava a se mover e, quando dançava, ocupava um lugar que era só seu no mundo.

Até que, um dia, acordou com uma forte dor na lombar. Pensou que fosse cansaço dos ensaios. Logo passaria.

Não passou.

As dores vinham todos os dias e aumentavam ainda mais quando dançava. Dançar foi ficando mais difícil e sua perna já não subia tanto no seu tão belo atiti

Tentou remédios, truques e todos os jeitinhos de quem ainda não se convenceu a ir ao médico. Nada resolveu!

Da medicina também não veio a solução, e nem a causa. 

Beatriz teve medo de ter que fazer o que era mais sensato: parar de dançar.

Relutou, brigou consigo, com todo mundo e até com Deus. Como dizer para as suas pernas em X e seus olhos expressivos demais que ela não mais dançaria?  

Não, não havia possibilidade de parar! 

Mas, com o tempo, uma dose de dor e outra de medo, quase qualquer convicção pode ser vencida. 

Beatriz cedeu e parou.

No espelho, agora via pernas tortas, que batiam uma na outra ao andar e não achava mais bonitas em saias. Seus olhos expressivos demais denunciavam o tamanho da tristeza de quem estaria sentindo a dor da sua primeira perda na vida.

Era um combo de dor física, a dor da perda de fazer o que mais amava e a frustração de perder para si mesma. Entrou então no limbo que todo mundo entra um dia: 

onde se aceitou se despedir de um ciclo, mas ainda não se enxerga o próximo. 

Nesse lugar sem muita esperança, os sentidos parecem se aguçar, como se esperássemos um novo movimento de vida fora de nós para reacender a vida dentro de nós. 

É nesse momento vazio que percebemos em algo comum um toque de extraordinário!

Comum era comer os bolos de chocolate da sua mãe. Todas as semanas, os bolos na casa faziam a alegria. A pausa para comer um bolo quentinho que acabou de sair do forno era um momento único de prazer que durava exatamente o tempo do bolo esfriar.

Numa quinta-feira qualquer, Beatriz decidiu ela mesma preparar o bolo de chocolate comum, mas sentiu algo extraordinário. Ela ousou colocar uma colher de geléia de pimenta na massa clássica do bolo, e seu cérebro deu um click. Ela se pôs a tentar outra mudança de ingrediente, depois outra mudança no preparo, e percebeu uma mudança em si mesma. Descobriu um novo lugar seu, mas que sempre estivera ali, no chão da cozinha da casa da sua mãe.

Assim como um dia dançou pela primeira vez e em outro ousou mudar uma receita, talvez houvessem outros “primeiros” esperando por ela. 

Seu campo de pensamentos se abriu e ela começou a imaginar caixinhas espalhadas pela vida, escondidas e guardando dentro delas diferentes versões de quem ela poderia ser. 

Quantas caixinhas ainda poderia encontrar?

Beatriz se permitiu imaginar advogada, nadadora, professora de biologia, economista… e, aos poucos, aprendeu a reconhecer suas caixinhas verdadeiras. Percebeu que elas são mais diversas do que únicas.

Eram tantas que pareceu injusto chorar demais por apenas uma perdida.

Em cada nova caixinha aberta, descobria características que nunca havia reconhecido em si mesma, ou que, até então, pareciam ser seus “defeitos”, como um dia pensou das suas pernas em X e seus olhos expressivos demais. 

Aprendeu, então, que mesmo as caixinhas mais queridas não precisam ser eternas.

Na vida, nada é tão permanente que impeça a sensatez de deixar ir, 

e nada é tão passageiro que não possa ser insistido.

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As histórias do passado movediço https://contocomgraca.com.br/as-historias-do-passado-movedico/ https://contocomgraca.com.br/as-historias-do-passado-movedico/#respond Tue, 26 Aug 2025 19:32:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=855

“Quando um homem se senta ao lado de uma mulher bonita por uma hora parece que passou um minuto. Mas se ele se sentar em cima de um fogão quente por um minuto parece que passou mais de uma hora. Isso é relatividade.”

Juliana adorava ver fotos antigas. As mais velhas que tinha eram as da juventude de sua avó, mas eram pouquíssimas e esquecidas em um álbum amarelado. 

Parada em frente à uma foto, ela prestava atenção nos detalhes das roupas, nos cabelos, nas expressões, no cenário ao fundo, e se pegava imaginando uma história que encaixasse perfeitamente no que parecia ser o momento do registro. 

Na sala da casa da sua mãe, havia um porta-retrato com a foto de seu aniversário de 9 anos. Ela aparecia emburrada, fazendo o bico das crianças contrariadas, atrás do bolo, cercada por crianças sorridentes na hora do parabéns. Durante anos, cada visita que notava o porta-retrato ouvia sempre a mesma versão: 

“que ela havia perdido injustamente uma partida de jogo de tabuleiro instantes antes do parabéns.” 

Ela ria, mas ainda sentia uma pontada da raiva que aquela garotinha de 9 anos sentiu quando se viu injustiçada pelos próprios amigos na sua própria festa.

Anos depois, numa festa de Natal, os primos sugeriram jogar para passar o tempo. Era o mesmo jogo traumatizante, mas agora ela era uma adulta resolvida, que acreditava ter aprendido a nunca mais se dobrar à injustiças. Repassando as regras, alguém menciona uma que ela nunca havia notado. 

– Mas sempre foi assim? 

– Claro que sim! Você não se lembra que… 

Nesse momento, todas as suas certezas da injustiça sofrida no passado foram ao chão. Relutou um pouco, mas a verdade é que ela nem sabia mais o que pensar sobre aquele dia e, o pior, sobre si mesma. 

O que faria agora com a história que já estava tão confortavelmente moldada à imagem de quem acreditava ser? 

A história da foto mudou. 

Já não havia ofensa a reparar. No lugar, uma reprovação interior à garotinha que foi teimosa demais e brigou depois de uma derrota estúpida no dia do seu aniversário. Agora, o seu desafio era se resolver com a imagem que fez de si como uma pessoa orgulhosa.

Com o passar dos anos, Juliana viveu muitas outras perdas, nos jogos e fora deles. Brigou, persistiu, recuou quando foi preciso. Algumas vezes validou sua teimosia chamando-a de persistência, e sua briga de coragem. Em outras, ela viu apenas orgulho. Em situações em que recuar já não era mais possível, se reencontrava na lembrança da garotinha emburrada no dia do aniversário.

Certo dia, remexendo em caixas de fotos para ajudar na mudança de sua mãe, reencontrou sua foto algoz. Mas, dessa vez, no seu olhar já não havia raiva nem reprovação, apenas ternura, como se acolhesse a menina que não conseguiu superar seja lá o que fosse no instante do parabéns para simplesmente sorrir. É justo que todo mundo deveria sorrir no dia do seu aniversário.

Foi então que se deu conta de que uma foto estática e congelada não guarda apenas uma história. 

Na verdade, ela carrega todas as histórias que descobriremos nela ao longo da vida. 

Na sala, o porta-retrato voltou. Mas, dentro dele, já não estava apenas a garotinha injustiçada nem a orgulhosa: estavam todas as Julianas que ela havia sido, e todas as que ainda seria.

Porque o passado não é uma foto: ele muda conforme mudamos!

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Ponto-cego https://contocomgraca.com.br/ponto-cego/ https://contocomgraca.com.br/ponto-cego/#respond Sun, 24 Aug 2025 22:17:12 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=902

“Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.”

“Se o medo chegar, eu coloco ele na mala e levo junto”, Lúcia sempre dizia. 

Não que ela não sentisse medo, mas aprendeu a fazer calá-lo e seguir em frente. Talvez porque era daquelas que sempre olhavam o lado bom das coisas, com uma boa dose de resiliência e, paradoxalmente, um sólido histórico de frustrações. 

É isso mesmo, o fracasso, quando bem digerido, ensina duas lições: 

1) onde está o erro

2) nenhuma tristeza dura para sempre.  

É daí que nasce a certeza de que tudo ficará bem, mesmo se as coisas dão errado. Certeza que se torna um bom combustível para qualquer aventureiro. 

Dirigir era a aventura de Lúcia. E rápido!  

Ela não ultrapassava os limites, mas escolhia as estradas com os mais altos. Sua experiência lhe ensinara que tão importante quanto a velocidade que o carro chega, são os seus espelhos e os freios. Se confiava nos espelhos, mudava de faixa sem surpresas. Se confiava nos freios, ousava acelerar, certa de que eles responderiam rápido se fosse preciso. 

Lúcia não se achava uma grande motorista, mas confiava nos seus espelhos e nos seus freios.

Até que, numa sexta-feira à noite, voltando para casa após um jantar, quase colidiu com um Rolls Royce preto ao trocar de faixa. “Como um carro daqueles foi parar no ponto cego de espelhos tão confiáveis?” Martirizou-se por dias. A confiança nos espelhos se quebrou, mas ainda havia muita confiança nos freios para continuar suas aventuras.  

Com o tempo, aprendeu a calcular tão bem as distâncias que o seu olhar se ajustou para a medida exata dos seus pontos cegos. 

Quando enfim se sentia segura de novo, uma pista molhada lhe deu uma derrapagem. Descobriu, assustada, que seus freios já não respondiam como antes. Mais algumas outras derrapagens e logo percebeu que precisaria se adaptar para considerar distâncias maiores. 

Foi duro ver que as regras da sua estrada estavam mudando. 

Há perigos que nunca saberemos se eles sempre estiveram lá e não os vimos, ou se surgiram apenas naquele instante. 

Com espelhos duvidosos e freios cansados, dirigir não era mais tão divertido. Lúcia sentiu como se tivesse perdido a potência de quem decide e faz, na velocidade que quer, o seu caminho. 

E potência é como o açúcar: energia rápida, prazer imediato, quase viciante. Mas, agora, não poderia mais alimentar seu vício e teve que se acostumar a se ver na faixa da direita.

Passado o seu estado contrariada e pisando menos no acelerador, ela deixou seu olhar ter outros olhares. Descobriu marcas de pneus nos cruzamentos que denunciavam aventuras passadas e ficava pensando se algumas seriam dela. Reparou nas árvores à beira da estrada que trocavam de cor a cada estação. Passou a parar numa barraca de frutas para tomar água de coco e ouvir as histórias bem-humoradas do senhorzinho que atendia por ali. 

Até a música do carro mudou. Letras antigas se revelavam novas, como se estivessem esperando o momento certo para se mostrar quando o ouvinte estivesse realmente ouvindo. Ela chegava a dar uma ou duas voltas a mais no quarteirão só para ouvir mais um pouquinho daquela música que, de repente, tinha arrebatado o seu coração. 

Numa dessas voltas a mais, Lúcia percebeu que a adrenalina de um caminho rápido pode até divertir, mas o vício dela nos cega para outros prazeres. 

Quando a estrada nos força a mudar nosso jeito de dirigir, percebemos que ela mesma tem a felicidade escondida no caminho!

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Só se vê bem… quando se aprende a ver https://contocomgraca.com.br/quando-se-aprende-a-ver/ https://contocomgraca.com.br/quando-se-aprende-a-ver/#respond Fri, 22 Aug 2025 00:00:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=809

"Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo aqueles que têm belezas dentro de si."

Clarisse tinha o hábito de dar vida ao concreto, principalmente os prédios da selva de pedra em que vivia. 

Se parasse um tempo em frente a um prédio antigo, baixo, retangular e sem elevador, logo imaginava que ele seria para os outros prédios como um senhor de sobrancelhas grossas, óculos quadrados, roupas engomadas, pernas cruzadas e jornal de papel nas mãos. Se fosse um  prédio alto, espelhado e assimétrico, ela pensaria nele como uma pessoas moderna, que seguia a moda das passarelas e tomavam café sem açúcar. Já um prédio simétrico e moderno, mas clássico, poderia ser alguém de ideias inovadoras, mas fiel ao mesmo prato, no mesmo restaurante de sempre. Nenhum prédio escapava de seus achismos e estereótipos.

A cada esquina havia personagens conhecidos e o mundo de Clarisse era cheio de diálogos silenciosos e mais previsíveis que os que ela conseguiria prever no mundo real.

Um dia, porém, precisou entrar em um desses prédios-personagens. Tinha entrevista de emprego em um edifício azul-claro, de janelas pequenas, nem muito alto nem muito baixo, quadrado e sem espelhos. Embora a forma do prédio não a empolgasse, ele tinha um jeito meio ajeitado: pintura recente, janelas impecavelmente limpas, nada quebrado. Misturava tantos elementos que era um dos prédios mais difíceis para ela classificar.

Na recepção, uma senhora simpática a recebeu, e Clarisse, atenta, percebeu seus óculos quadrados, camisa branca abotoada até o pescoço e calça com vinco perfeito. Ofereceu-lhe café, já dizendo que o dela seria sem açúcar para escapar da diabete. A senhora abriu um armário mostrando a ela pacotes de cafés do mundo inteiro: brasileiro, indiano, árabe, colombiano e tantos outros. Contou que escolhia um diferente a cada semana, mas sempre o tomava na mesma xícara que tinha pintada a frase: 

“Só se vê bem com as evidências.”

Clarisse riu do trocadilho com a famosa frase sobre o coração de “O Pequeno Príncipe”. E, tomando o café árabe, pensou: será que sua mania de inventar prédios-personagens era coisa de quem via o mundo com o coração ou com as evidências?

Antes que pensasse na resposta, o telefone tocou e ela foi chamada ao segundo andar. O elevador era dos antigos, com porta de grade que se fechava por dentro. Deu até medo de entrar! Ao sair, já reparou num grafite na parede da sala assinado pelos Gêmeos, os famosos grafiteiros brasileiros. E não pode não reparar no contraste do grafite moderno com uma poltrona de couro na sala, bem antiga e que a lembrava a da casa da sua avó. 

Uma pessoa entrou na sala e entregou um teste simples: escolher, em cada par de objetos, o que mais lhe agradava. Parecia fácil, mas não foi. Clarisse percebeu que sua escolha nunca era neutra… ela pensava antes pelo que julgava ser moderno, inovador, confortável, amigável, seguro… e por aí vai. 

Sua mente voltou à frase da xícara. 

“Como confiar se o que vejo são mesmo evidências do que eu penso?”

“Como posso decidir o que é importante sem perguntar “para quê”, “quando” e “por quem”?”

No seu primeiro objeto do teste, ela paralisou: um ferro de passar contra um fone de ouvido. 

O ferro seria essencial para passar a camisa da entrevista, mas não é um grande problema sair com uma camisa amassada para ir a academia. Já o fone de ouvido, ela poderia dizer que é sempre desnecessário? Também não conseguiu dizer. 

Pensou e repensou em sua forma de fazer classificações, a começar por aquele prédio: não era o grafite dos Gêmeos que fazia a sala ser moderna, nem a poltrona de vó que a tornava antiga. 

Era o prédio mais difícil de classificar, por fora e por dentro. 

Clarisse terminou o teste criando sempre dois cenários para cada escolha, como se recusasse a reduzir o mundo a uma só lente.

Afinal,

Cada evidência só serve para se provar ao olhar que já a escolheu.

E talvez só se veja bem de verdade quando não se escolhe o que olhar e, ainda assim, se consegue ver tudo.

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