Com ciência – Conto com Graça https://contocomgraca.com.br Um lugar de contos, crônicas, ciência e fé Sun, 28 Sep 2025 21:40:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://contocomgraca.com.br/wp-content/uploads/2025/07/logo-sem-fundo-512-150x150.png Com ciência – Conto com Graça https://contocomgraca.com.br 32 32 Obras Maiores https://contocomgraca.com.br/obras-maiores/ https://contocomgraca.com.br/obras-maiores/#comments Sun, 28 Sep 2025 21:12:10 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1686

Nem sempre os fins justificam os meios, mas quase sempre diferentes meios podem conduzir à um mesmo fim.

Pense, por exemplo, que o dia está quente e você está se movimentando. Seu corpo precisa manter a temperatura estável e, para isso, você pode: procurar um lugar com ar-condicionado, diminuir a atividade física, beber água gelada ou mesmo suar mais para aumentar a evaporação.

Esse é um exemplo do conceito chamado Equifinalidade, que influenciou ideias da biologia, psicologia e organizações de trabalho, e diz:

“Um mesmo estado final pode ser alcançado a partir de condições iniciais diferentes e por diferentes caminhos.”

Essa ideia de vários caminhos parece contrastar com o que Jesus disse sobre ele ser O caminho, no evangelho de João 14:6:

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”

Mas, Jesus nunca disse que os métodos que ele usou eram o caminho, mas que ELE MESMO é o caminho.

Focamos nos métodos, criamos fundamentalismos, classificamos ciência e religião como se fossem métodos distintos para resolver a vida, e caímos na idolatria de adorar os métodos de Jesus, com seus milagres e instruções literais à uma sociedade de 2000 anos atrás, sem entender que ELE MESMO é o caminho.

Olho para o mundo e imagino O Caminho manifestando-se em vários métodos:

Penso num cego de nascença que hoje, ao invés de ser curado com lodo lavado no tanque de Siloé (João 9:1–7), manifesta a glória de Deus ao fazer um transplante de córnea (só no Brasil, foram 17 mil transplantes de córnea em 2024), uma cirurgia de catarata, ser submetido a terapias genéticas, ou usar óculos de realidade aumentada. Hoje, os cegos veem!

Um surdo que não encontrar a saliva de Jesus, pode ouví-Lo ordenar Efatá (Marcos 7: 31-37) através dos aparelhos auditivos digitais, implantes cocleares que permitem ouvir mesmo sem células auditivas funcionais, ou cirurgias de reconstrução do ouvido médio. Hoje, os surdos ouvem!

Não só uma (Marcos 5:25–34), mas muitas mulheres com hemorragias podem sentir o poder das vestes de Jesus depois de uma cirurgia ginecológica para retirar miomas e endometriose, medicamentos hormonais, transfusões de sangue e reposição de ferro. Hoje, a hemorragia é estancada!

Imagino não só os 10 leprosos que encontraram Jesus e clamaram por misericórdia (Lucas 17:11–19), mas as 180.000 pessoas por ano que serão diagnosticadas com hanseníase e cerca de 70% deverão encontrar a cura completa através de tratamentos com antibióticos e não serão mais excluídos porque os programas de saúde pública reduziram drasticamente casos e exclusão social. Hoje, a lepra é curada!

Fico maravilhada ao imaginar que o paralítico que viveu durante 38 anos na beira do tanque de Betesda esperando as águas se agitarem (João 5:1-9), poderia hoje tomar seu leito e andar, mesmo num dia de sábado, com as cirurgias ortopédicas e neurológicas, neuroestimulação elétrica, fisioterapia intensiva e reabilitação, ou até mesmo através de exoesqueletos robóticos que permitem caminhar. Hoje, os paralíticos andam!

Penso nas Saras (Gênesis 17–21), Anas (1 Samuel 1) e Isabels (Lucas 1:5-25) de hoje que têm as suas orações silenciosas atendidas e recebem o milagre de gerar um filho através da terapia hormonal, fertilização in vitro, inseminação intrauterina, correção cirúrgica e até mesmo a doação de óvulos ou espermatozoides onde os casos parecem irreversíveis. Hoje, a mulher estéril dá a luz!

E como não mencionar que hoje vemos a multiplicação não só dos pães (João 6:1-14), mas das frutas, verduras, legumes… com tanto avanço na agricultura e todo o sistema de produção industrial. Hoje, os alimentos são multiplicados!

A lista é imensa e a cada dia vai ficar maior.

Sob a ordenança de Jesus, todo o universo se rende, e foi ele mesmo que ordenou em João 14:12:

“Creiam em mim: estou no Pai, e o Pai está em mim. Se não conseguem crer nisso, creiam no que veem — minhas obras. Quem confia em mim fará não apenas as coisas que faço, mas poderá até mesmo fazer coisas maiores, porque eu, em meu caminho para o Pai, dou a vocês o privilégio de fazer a mesma obra que tenho realizado. Podem contar com isso.”

É por isso que falar de ciência é falar de boas-novas.

Quando Jesus é O caminho, o que vemos é cura, libertação, multiplicação, renovo e esperança.

Que Deus ajude a nossa fé para crer com a ciência!

Que Deus ajude a nossa fé para ver a obra que Ele continua fazendo através de nós!

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A filosofia e a medicina baseada em evidências https://contocomgraca.com.br/a-filosofia-e-a-medicina-baseada-em-evidencias/ https://contocomgraca.com.br/a-filosofia-e-a-medicina-baseada-em-evidencias/#respond Thu, 11 Sep 2025 00:41:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1121

“Era melhor como filósofo do que como médico”, diziam alguns críticos.

Mas quem acha que a filosofia e a medicina não se complementam, talvez não conheça muito bem nem uma, nem outra. 

Já no século II, Galeno, médico romano, disse:  

“O médico deve ser um filósofo”.

E foi justamente um médico filósofo, durante a “era de ouro” do Islamismo, que foi pioneiro nas bases da medicina baseada em evidências. Sem ela, não poderíamos fazer a pesquisa e o desenvolvimento de um medicamento de forma confiável.

Avicena foi um jovem prodígio que combinou as influências do Alcorão, do direito islâmico e da sabedoria grega em seus ideais.

Do Alcorão, que decorou inteiro aos 10 anos, gravou:

“E não persigas o que não tens conhecimento; por certo, o ouvido, a visão e o coração — de todos eles se pedirá conta” (Surata al-Isrā, 17:36)

Ele entendeu que o conhecimento verdadeiro deveria ser perseguido e, para isso, o experimentalismo se tornou seu norte, porque a verdade não estaria na opinião das pessoas, mas na realidade observada das coisas.

Da tradição islâmica, ele também valorizou e incorporou a ideia de consenso (Ijma) em seus ideias. Ele acreditava que a verdade não deveria ser imposta por alguém, mas que chegar a um consenso é necessário para valorizar as diferenças de opinião e padronizar práticas.

Das suas leituras e influência grega, ele herdou a lógica do princípio Aristotélico, onde deveria pensar a concretude das coisas no raciocínio bem elaborado e nunca perder os argumentos para meros formalismos ou abstrações.

Ele também teve influência dos estóicos e, deles, aprendeu a lógica das condicionais do “se…. então”, que abrem as possibilidades de fazermos proposições, para muito além de cálculos matemáticos. Hoje, a lógica das condicionais parece óbvia e comum para nós mas, naquele momento, essa lógica era mais restrita à matemática e não tão comum às ciências experimentais.

Avicena combinou a filosofia, suas crenças e ideais com a sua prática de médico, observando os seus pacientes e como os novos tratamentos que propunha poderiam funcionar. Com as suas observações, ele formulou sete regras para avaliar como os medicamentos podem agir para tratar uma doença. Essas regras foram descritas no seu Cânone da Medicina, que influenciaria tanto o oriente quanto o ocidente para a farmacologia moderna.

1ª regra: O medicamento deve ser puro, sem impurezas (hoje temos as boas práticas de fabricação – a produção deve ser confiável).
2ª regra: O medicamento deve ser testado em uma única doença, não em casos com múltiplos problemas (princípio de observar um efeito e saber atribuir o resultado sem confusão).
3ª regra: O medicamento deve ser testado com dois tipos contrários de doenças: às vezes, um medicamento cura uma doença por suas qualidades essenciais e outro por qualidades acidentais.
4ª regra: A qualidade do medicamento deve corresponder à força da doença.
5ª regra: O tempo de ação do medicamento deve ser observado.
6ª regra: O efeito do medicamento deve se repetir em muitos casos, pois se isso não aconteceu, foi um efeito acidental (hoje confiamos nos cálculos estatísticos que consideram o número de pacientes tratados para uma força estatística).
7ª regra: A experimentação deve ser feita com o corpo humano, porque testar uma droga em um leão ou cavalo (isso também vale para os experimentos em células) pode não provar nada sobre seu efeito sobre o homem.

Essas regras foram o embrião da medicina baseada em evidências, que sustenta as pesquisas e ensaios clínicos de hoje.

Embora outros cientistas e pensadores surgiram na mesma época com ideias próximas, a forma e clareza com que Avicena trouxe suas ideias fez com que elas pudessem exercer influência durante séculos, do mundo muçulmano à Europa cristã.

É por isso que se engana quem pensa que filosofia não tem aplicação prática. 

Quando refletimos sobre o caminho dos nossos pensamentos, encontramos novas lógicas que transformam.

Fonte: Legacy of Avicenna and evidence-based medicine. Shoja, Mohammadali M. et al. International Journal of Cardiology, Volume 150, Issue 3, 243 – 246. 

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Nanomedicina: um essencial invisível aos olhos https://contocomgraca.com.br/o-que-e-essa-tal-nanomedicina/ https://contocomgraca.com.br/o-que-e-essa-tal-nanomedicina/#respond Sun, 07 Sep 2025 01:25:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1323
Um mundo invisível

O que passa na sua cabeça quando ouve sobre o mundo das nano coisas? Nanotecnologia, nanociência, nanomedicina…

Eu sempre imaginei robozinhos, quase com vontade própria, deixando chips menores, materiais melhores e tudo mais eficiente. 

Um mundo paralelo que parecia existir somente nos artigos científicos, mas o percebi atravessando a minha vida quando fiz pesquisas de novos medicamentos contra o câncer. 

Um doutorado de 10 anos de estudo depois, ainda fico maravilhada ao ler sobre as descobertas que a nanociência está trazendo. 

Vou te levar comigo nesse post para dentro desse nano mundo que parece muito complicado, mas você vai ver que ele é bem simpático.


O que é “nano”?

A nanociência estuda o que está no tamanho da escala nanométrica. Para você imaginar:

  • 1 nanômetro (nm) é 9 milhões de vezes menor do que 1 metro. Impossível perceber com seus olhos e com microscópios comuns. 
  • Uma molécula de medicamento tem cerca de 1 nm. Ou seja, não podemos vê-la.
  • Uma partícula nano usada contra o câncer mede entre 3 e 200 nm. Já fica mais fácil para ver em microscópios avançados.
  • Uma célula do corpo humano tem, em média, 10.000 nm. Isso nós conseguimos ver tranquilamente nos microscópios.

 

Ou seja: moléculas < nanopartículas < células.

Essas partículas podem ser esféricas, como pequenas bolinhas, ou até com formas tão diferentes como a de uma flor (você pode digitar “flower shaped nanoparticles” no google imagem para conferir. 

Gosto de pensar nas nanopartículas como um “cavalo de Tróia” porque essa é a estratégia que usamos para elas levarem os medicamentos aonde precisamos. Elas carregam o medicamento dentro de si e atravessam barreiras que a molécula do medicamento sozinha não conseguiria vencer. 

Na superfície delas, ainda podemos usar técnicas para decorá-las colocando uma “molécula-alvo”, que as camuflam no corpo e aumentam as chances de o medicamento chegar aonde precisa. 

É como se uma nanopartícula fosse o envelope de uma carta, cujo conteúdo é o remédio, e na parte de fora está o endereço e a camuflagem.

nanopartícula oncologia
Os desafios dos tratamentos clássicos

Nos tratamentos de câncer tradicionais contra o câncer, enfrentamos alguns problemas que as nanopartículas podem ajudar a resolver:


1º – O medicamento precisa se dissolver no ambiente do corpo

Como somos feitos, em grande parte, por água, moléculas de medicamento pouco solúveis podem se agrupar em aglomerados grandes demais para entrar nas células.

Como o nano ajuda: ao colocar as moléculas do medicamento dentro das nanopartículas, ele deixa de agrupar no corpo e ainda o protegemos de degradação. Para impedir que as próprias nanopartículas grudem entre si, adicionamos moléculas na superfície que equilibram as forças de atração e repulsão.

 

2º – O medicamento precisa escapar das defesas do corpo 

O organismo possui proteínas de vigilância que reconhecem e eliminam qualquer substância estranha.  

Como o nano ajuda: ao revestir as nanopartículas com polímeros ou proteínas, familiares ao corpo, elas passam despercebidas pela patrulha de defesa imunológica.

 

3º – O medicamento precisa atravessar barreiras naturais

Alguns tecidos tem muros de proteção que impedem os medicamentos de chegar aonde precisam agir. No caso do cérebro, existe a barreira hematoencefálica, que só deixa entrar moléculas muito pequenas. É como se fosse uma barreira para entrar em um clube exclusivo e o segurança só deixasse passar quem estivesse com o nome na lista. As moléculas de medicamento raramente estão na lista.

Como o nano ajuda: podemos decorar a superfície das nanopartículas com moléculas que estariam com o nome na lista e o cérebro reconheceria facilmente, como moléculas de glicose, por exemplo. Assim, elas atravessam a barreira hematoencefálica como se fossem um alimento, liberando o medicamento lá dentro, como um cavalo de Troia.

 

4º – O medicamento precisa chegar no tumor 

Na quimioterapia clássica, não há direcionamento: o remédio viaja pelo corpo inteiro, atingindo órgãos que não deveriam ser afetados. Por isso, uma pessoa geralmente recebe doses de medicamento mais altas do que as necessárias no local da doença. 

Como o nano ajuda: tumores sólidos tem vasos sanguíneos desorganizados, cheios de frestas. As partículas nano tem o tamanho exato para entrar nessas brechas e não saem com facilidade. Esse efeito é chamado EPR “aumento de permeabilidade e retenção (do inglês “Enhanced Permeability and Retention”)”. É como entrar em um ônibus lotado que você vai passando apertado pelo corredor e fica preso em qualquer espaço livre. Assim, ao invés de liberarem o medicamento pelo corpo inteiro, liberam muito mais no tumor, reduzindo efeitos colaterais.

5º – O medicamento precisa entrar na célula de câncer

As células tumorais se parecem muito com as células saudáveis e é difícil atingir apenas as “vilãs”. 

Como o nano ajuda: procuramos pequenas diferenças entre as células saudáveis e as de câncer. Células de câncer de mama, por exemplo, precisam de mais moléculas de ácido fólico do que as células normais e, por isso, elas têm mais receptores de ácido fólico na superfície delas. Se decorarmos a nanopartícula com essa moléculas, ela se liga preferencialmente às células doentes, como num sistema de reconhecimento “chave e fechadura”.

Entrada da nanopartícula na célula

Agora imagine que essas partículas podem carregar dois ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Podemos, inclusive, combinar diferentes tipos de tratamentos, como a quimioterapia e a imunoterapia. 

Além disso, podemos rastrear essas partículas para saber aonde e como acumulam no corpo, ajudando também no diagnóstico enquanto tratam. Esses seriam os sistemas chamados de teranósticos. 

Apesar dos avanços, muita coisa ainda está em fase pré-clínica. Desde 1995, quando a FDA aprovou o primeiro medicamento nano (o Doxil), já foram registrados mais de 50. Mas a maioria ainda não traz toda a sofisticação que descrevi aqui.

A nanociência em oncologia ainda está na adolescência. Precisa amadurecer em custo, padronização e comportamento no corpo. Mas, pelo que temos visto nas últimas duas décadas, é apenas questão de tempo até que esses sistemas saiam dos laboratórios e cheguem às farmácias.

E, quando isso acontecer, o invisível será essencial na luta contra o câncer.

Fonte:

1) Nanomedicine in Cancer Clinics: Are We There Yet? P. P. Nayak, Nijil S, A. Narayanan, A. K. Badekila, S. Kini. Current Pathobiology Reports (2021), 9, 43–55.

2) Emerging Nanopharmaceuticals and Nanonutraceuticals in Cancer Management. L. Salama, E. R. Pastor, T. Stone, S. A. Mousa. Biomedicines (2020), 8, 347.

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Um acidente no campo de batalha e o estudo de uma nova terapia https://contocomgraca.com.br/um-acidente-no-campo-de-batalha-e-o-primeiro-estudo-clinico/ https://contocomgraca.com.br/um-acidente-no-campo-de-batalha-e-o-primeiro-estudo-clinico/#respond Fri, 05 Sep 2025 01:46:32 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1241

O primeiro estudo clínico de um tratamento novo foi feito por acidente!

Essa história se passou em 1537, onde o médico cirurgião francês Ambroise Paré tratava os soldados feridos em batalha. 

Os feridos eram muitos, o coração do médico era enorme, mas o seu óleo medicinal era pouco.

Naquele tempo, acreditava-se que os ferimentos de uma arma de fogo eram venenosos e, por isso, deviam ser tratados com óleo fervente para uma rápida cauterização e impedir uma infecção. 

Mas, não havia óleo para tratar tantos soldados.

Com muitos receios, Ambroise Paré precisava fazer algo por aqueles feridos que não teriam óleo. Ele improvisou uma poção com gema de ovos, óleo de rosas, e um resíduo de árvore, apenas para não deixar aqueles soldados com a sensação de que não estavam sendo cuidados, e aplicou a poção nas feridas de boa parte dos soldados.

Ele descreve:

“Por fim, meu óleo acabou e fui obrigado a aplicar, em seu lugar, um digestivo feito de gemas de ovos, óleo de rosas e terebintina. Naquela noite não consegui dormir tranquilo, temendo que, por falta da cauterização, eu encontrasse mortos, envenenados, os feridos sobre os quais não havia usado o dito óleo.” 

A noite do médico foi terrível imaginando que os soldados que receberam a poção improvisada estariam sentindo uma dor insuportável.

Na manhã seguinte, uma surpresa: aqueles cujas feridas foram cobertas com a poção improvisada, estavam quase sem dores, conseguiram dormir, e em suas feridas já não havia tanto inchaço e inflamação. Já os que receberam o óleo convencional, estavam com muitas dores, inchados e não dormiram. Com o resultado, ele decidiu:

“Então, determinei nunca mais queimar tão cruelmente os pobres feridos por arcabuzes.”

Hoje sabemos que o óleo fervente destrói tecidos e piora as lesões, enquanto a nova poção manteve a ferida úmida, aliviou a dor e trouxe uma barreira antimicrobiana natural, já que combinou substâncias contendo proteínas, anti-inflamatórios naturais, antissépticos e cicatrizantes.

 Corre a história que Paré sempre dizia aos seus pacientes: 

“Eu o tratei, Deus o curou.”

E quem poderá dizer que a “descoberta acidental” que curou os soldados foi mesmo apenas um acidente no universo?

Por mais que um ensaio clínico efetivamente controlado só tenha ocorrido 200 anos depois, um coração transbordando de generosidade, uma mente atenta ao conhecimento e uma fé disposta levaram aquele médico no campo de batalha a salvar vidas e dar a sua contribuição ao que viria a ser a pesquisa clínica.

Fonte: Bhatt A. Evolution of clinical research: a history before and beyond james lind. Perspect Clin Res. 2010 Jan;1(1):6-10.  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3149409/pdf/PCR-1-6.pdf

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Ângulos https://contocomgraca.com.br/angulos/ https://contocomgraca.com.br/angulos/#respond Wed, 03 Sep 2025 02:06:51 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1290

Eu queria ver os ângulos!

 

Você sabe, geometria não é fácil

Tem hora que o ângulo de 30 parece o de 45

Mas pior é descobrir

Que o ângulo raso é, na verdade, um ângulo reto já muito cansado

Que deitou para descansar

 

Eu insisti para ver os ângulos

 

Foi difícil, você também sabe

Uma hora a vida obriga a gente

A parar de buscar conjuntos soluções para problemas reais

E problemas reais para soluções imaginárias

 

E foi aí que eu aprendi a ver os ângulos

 

Vi que até a reta

Guarda em si um ângulo raso estendido

E que a solução dos problemas

Quase sempre nasce da tangente que escapa do último ângulo pensado

 

Eu comecei a ver os ângulos

 

Comecei pelos meus

Percebi os tantos ângulos que tenho em mim

Achei os senos, os cossenos e as tangentes

Quando eu montei os meus arcos, eu enxerguei NÓS!

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O primeiro estudo clínico: experimento de Nabucodonosor https://contocomgraca.com.br/o-experimento-de-nabucodonozor/ https://contocomgraca.com.br/o-experimento-de-nabucodonozor/#comments Sun, 31 Aug 2025 01:00:00 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=1042

“Os jovens do Reino devem comer carne e beber vinho para se apresentarem em perfeita forma física!”

Essa foi a ordem do rei da Babilônia, Nabucodonosor, por volta de 500 a.C.

Mas alguns jovens, mais inclinados à dieta vegetariana e muito ousados, insistiram com o rei que, se comessem apenas legumes e vegetais, pareceriam mais saudáveis do que os carnívoros da corte.

Em vez de punir os rebeldes, o rei, que era um engenhoso líder militar de curiosidade aguçada, um pouco maluco e outras peculiaridades, decidiu testar a ideia e ordenou o primeiro ensaio clínico da história: 

Por 10 dias os rebeldes seriam alimentados apenas com legumes, vegetais e água, enquanto os demais jovens do reino comeriam apenas carne e beberiam vinho.

O resultado? 

Os jovens comedores de legumes realmente aparentavam estar mais bem nutridos e mais fortes do que os jovens carnívoros. 

Convencido, o rei permitiu que eles seguissem a sua dieta. 

Mesmo que esse teste esteja longe do rigor do que chamamos hoje de estudo clínico, ele pode ser considerado o primeiro experimento documentado que se assemelha a um estudo clínico e está descrito na Bíblia, no livro de Daniel, capítulo 1. Provavelmente, foi uma das primeiras vezes na história da humanidade em que um experimento guiou uma decisão sobre saúde pública.

Hoje, os estudos precisam provar serem estatisticamente confiáveis e, para isso, há um número mínimo de participantes que confere força aos resultados com base em cálculos matemáticos. Outro ponto importante é a seleção das pessoas que participam de um estudo, pois elas não podem ter condições prévias de saúde que influenciem nos resultados e, por isso, há critérios para a inclusão e exclusão de pessoas em um estudo. 

Além disso, os participantes são geralmente randomizados, ou seja, por sorteio aleatório, os jovens seriam escolhidos para estar no grupo dos comedores de carne ou no grupo dos herbívoros. Em muitos casos, nem os pesquisadores sabem quem está em qual grupo, é o caso dos estudos chamados de duplo-cego. Já no experimento de Nabucodonosor, tudo era aberto, porque todos sabiam o que cada um comia quando julgou a aparência física dos jovens, sem nenhum rigor científico.

Vale lembrar também que os jovens que desafiaram o rei da Babilônia foram o profeta Daniel e seus amigos. Daniel, de acordo com a Bíblia, era um jovem nobre judeu de Jerusalém que foi levado cativo para o palácio de Nabucodonosor quando uma parte dos judeus foi exilada na Babilônia. Estes jovens judeus fizeram o grupo dos herbívoros, enquanto os jovens da corte da Babilônia fizeram o grupo dos carnívoros, o que pode trazer viés da própria cultura e costumes alimentares que esses jovens já possuíam antes do estudo do rei, podendo influenciar no resultado.

Com todas as diferenças que vemos desse experimento com os estudos avançados que fazemos hoje, é incrível pensar que, há cerca de 2.500 anos, em meio ao esplendor da Babilônia, um desafio alimentar entre jovens e um rei curioso foi registrado no Antigo Testamento e entrou para a história como o primeiro passo de algo que hoje chamamos de pesquisa clínica.

Fonte: Bhatt A. Evolution of clinical research: a history before and beyond james lind. Perspect Clin Res. 2010 Jan;1(1):6-10.  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3149409/pdf/PCR-1-6.pdf

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Era uma vez… Atchin! Uma invasão no seu sistema imunológico. https://contocomgraca.com.br/era-uma-vez-atchin-uma-invasao-no-seu-sistema-imunologico/ https://contocomgraca.com.br/era-uma-vez-atchin-uma-invasao-no-seu-sistema-imunologico/#respond Thu, 28 Aug 2025 04:34:37 +0000 https://contocomgraca.com.br/?p=105

Era uma vez… Um espirro e vários outros depois desse!

Você começou a se sentir estranho e… batata! O seu corpo está sendo atacado.

Os vigilantes imunológicos do seu corpo estão à postos pra te defender!

(acompanhe os números na imagem)

Entre os personagens, DC (célula dendrítica) está na patrulha para identificar o que de estranho entrou em você (1)

Sem demora, ela envia mensagens por meio de citocinas para outros importantes personagens, como o T (linfócito T auxiliar), que logo vai correr identificar o invasor que a DC já investigou em um processo conhecido como apresentação de antígeno (2).

Pronto, o invasor já está identificado e o sistema imunológico pode trabalhar junto para te defender. 

Nos linfonodos, todo mundo se reúne para a reunião de equipe e ali, entre outros personagens, temos o B (linfócito B), o M (macrófago) e o K (linfócito T “killer” citotóxico) (3).

A defesa que o nosso corpo realiza é coisa linda de ver! 

O B é o linfócito que produz anticorpos que podem fazer marcações nos invasores. Quando o M encontrar um invasor marcado, ele já vai logo ingerindo o invasor para destruí-lo. Já o K, sai em busca das células infectadas pelo invasor para eliminá-las, sem dó (4).

Há mais personagens além desses, mas é assim, nesse movimento concertado, que o nosso corpo faz o melhor que pode pra que você se sinta melhor no dia seguinte!

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